Antropofagia Tupinambá e a Helena que Homero não Conheceu

Os índios Tupinambás foram conhecidos em toda História do Brasil por utilizarem a guerra e seus rituais antropofágicos como forma de controle social. Embora fossem uma grande etnia, no início de nossa história eles se dividiram através de guerras sangrentas que dizimaram grande parte das tribos, e os sobreviventes se refugiando em ilhas no litoral da Bahia.

Segundo a narrativa existente no 1º tomo da Revista do Instituto Histórico e Geografico Brasileiro, após os tupinambás expulsarem os Tupinaés e os Tapuias de suas terras e se localizarem da região privilegiada do litoral de Ilhéus, eles começaram uma grande e sangrenta guerra entre famílias após um índio sequestrar a filha de um outro Tupinambá e não querer devolver.

“O pai, que era reputado pelo povo por mais distincto, dando-se offendido do roubo, convidou todos os seus parentes e amigos para o despicarem. Convieram a todos, e juntos passaram de algumas aldeas: encorporados todos esses com os moradores do rio Paraguassú, entraram a fazer cruelíssima guerra aos que não os seguiam, como se todos fossem complices no delicto que um só commetteu, e emboscados em uma ilhota que até hoje conversa o nome do MEDO, todos os dias se matavam muitos de parte a parte.

Destes tupinambás que passaram a ilha de Taparica, se povoou o rio Jaguarive, o de Finharé e a costa dos Ilheos. E foi tal o ódio que conceberam entre si, que ainda hoje o conservam, não obstante estarem mais domados; sendo uma só nação, e todos parentes”. (Texto extraído da RIHGB, tomo I, página 158)

Atiçados pelos portugueses (que ali acabavam de aportar) para queimar os ossos, o ódio se intensificou e as guerras de vingança tomaram conta da etnia, e assim os Tupinambás deixavam os portugueses mais à vontade para a dominação local.

Os portugueses chamavam os costumes dos índios de bizarros, pois eram totalmente diferentes da sociedade eurocêntrica. Os homens poderiam ter várias esposas. Os grupos eram sendo formados quando o homem desposava a primeira esposa e construía seu próprio grupo e sempre havia a figura de um ancião na família.

Os Tupinambás retiravam todos os pêlos do corpo, incluindo cílios, e deixando apenas o cabelo cortado. Tanto os homens quanto as mulheres se utilizavam deste artifício. No luto as viúvas raspavam toda a cabeça, e se o luto fosse do homem , o viúvo deixa o cabelo crescer.

Seus corpos eram pintados com grafismos com corante à base de jenipapo. Tinhas os lábios e as orelhas furadas e ossos e contas como adornos. Segundo o relato, eles andavam nús “por galanteria; e não por decência ou honestidade, cobrem as partes genitaes com alguma pelle de pássaro”.

Um dos costumes femininos era colocar uma espécie de cinta apertada nas pernas das meninas que ainda não haviam menstruado. Este procedimento fazia com que elas ficassem com as pernas mais grossas que o normal. Embora estas meninas pudessem ser tomadas por esposas, não haveria relação sexual até que fosse provado que ela passou pela menstruação. As mulheres também se enfeitavam com colares e braceletes de contas. Um fato interessante desta ornamentação corporal é que se a mulher fosse da idade de casar mas ainda sem pretendentes, ela mesma se adornava, enquanto que se a mulher já fosse casada, a responsabilidade do adorno era do marido.

Em contrapartida, os costumes masculinos eram reconhecidamente bestiais, pois se enfeitavam na cabeça com o conjunto pele/penas dos pássaros que esfolavam e no pescoço os dentes do inimigos mortos e sacrificados. Nos tornozelos usavam uma planta que quando seca faziam barulho de guiso a uma longa distância, o que fazia com que outros índios escutassem a sua proximidade. Carregavam em torno da região lombar um conjunto de pele/pena de ema que também esfolavam para este fim. Nos braços carregam braceletes de búzios e penas. Estas vestes eram utilizadas para dias de festividade, quando os portugueses diziam que era dia de “bebedeira geral”.

Na sociedade tupinambá o “feiticeiro” morava sozinho em uma habitação escura e fechada, onde os índios não entravam. Dificilmente se casavam e eram responsáveis pela parte ritualística do grupo.

Na etnia Tupinambá quando o chefe do grupo achava necessário entrar em guerra, ele chamava os anciões da aldeia para justificar a guerra e assim o papel destes anciões era comunicar aos seus familiares a guerra e começar a preparação do armamento para a contenda. Este costume, onde não precisaria haver um motivo “palpável” para a guerra, fez com que os portugueses identificasse os Tupinambás como belicosos e devido às guerras e rituais, os portugueses os definiram como “o povo mais bárbaro que Deus criou”.

Os guerreiros só atacavam quando havia lua cheia. Caso a jornada para a aldeia inimiga não terminasse na lua cheia, eles esperavam até que ela ocorresse para atacar. O ataque era realizado de uma vez só, com gritos e tambores de forma que a tribo inimiga, pega de surpresa, era totalmente dizimada e quase todos eram mortos, inclusive mulheres, crianças e até mesmo os que se rendiam. Os vencedores pegavam os despojos da tribo dizimada e voltavam rápido para sua tribo para que os aliados dos que foram sobrepujados não os pegassem no caminho.

Alguns inimigos eram feitos de cativos, onde vão para a aldeia vencedora, trabalha, possui uma certa liberdade e é alimentado pelas mulheres de forma que fique saudável. Em determinado momento escolhido pelo chefe, este cativo é amarrado em duas estacas no centro da aldeia .

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Começa então o ritual de antropofagia deste cativo, que “se sente alegre” e tem penas em seu corpo besuntado de mel de abelhas. O índio que o vai fazer o sacrifício chega paramentado e pintado, se ajoelha e pede ao cativo que este lhe conte toda sua vida e esta história faz com que o cativo se sinta vingado pois o cativo já comeu os parentes de quem agora o sacrifica. Circula entre todos uma bebida, onde inclusive o cativo bebe e cabe às mulheres mais velhas da aldeia pedir que ele desfrute do seu último dia de sol. As cordas que amarram o cativo são afrouxadas para que ele tenha uma batalha simbólica com o seu algoz, que por vezes é ferido. Após este momento as cordas voltam a apertar o pescoço do cativo, matando-o estrangulado. Após este ritual, o cativo (ou cativos) é destrinchado e começa o banquete antropofágico, onde o que o matou dá o banquete de sua carne assada ou cozida.

Os tupinambás também preparam algumas mulheres para engravidarem dos cativos. O filho gerado (o cunhamenbira) é criado de forma saudável para que seja sacrificado assim como o pai no momento oportuno, e a primeira pessoa que come a carne é a própria mãe.

A prática que para os europeus era chamada de bárbara, selvagem, para os índios Tupinambás, assim como para outras etnias, era uma questão ritualística e sagrada. O ato de se alimentar do outro era cultural.

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A perplexidade dos europeus pelo cativo “alegre” por ser sacrificado denota claramente a visão eurocêntrica ocidental, onde esta prática só poderia ser imaginada de alguma forma quando o canibal se vê em excassez de alimentos (AGNOLIN, 1998) . Este antropofagia é cíclica, pois a guerra entre os Tupinambás ocorria sempre como uma forma de controle social , e o conjunto vencedor-vencido era invertido com frequência, e assim o cativo de hoje já se alimentou da carne de algum índio da tribo que agora o devora, é o alimentar-se de si mesmo.

Segundo AGNOLIN (1998) “Resta, contudo, o fato de que o homem se representa digerindo culturalmente a morte do outro, subtraindo-o, desta forma, ao desaparecimento, numa ameaçadora e anônima (para a cultura) dimensão natural”.

O sociólogo Florestan Fernandes (citado por OLIVEIRA, 2006) diz que esta prática entre os Tupinambás não transita apenas pelo laço entre canibalismo e vingança, mas a um complexo mecanismo tribal de controle social e formas de poder, sendo uma forma de manter o equilíbrio cultural e demográfico.

Muito pouco se sabe sobre os índios Tupinambás além dos escritos dos europeus. Devido as constantes guerras entre tribos desta etnia, e outros motivos externos a este ciclo (extermínio pelos europeus, doenças, e outros fatores) esta etnia foi considerada extinta ainda no séc XVII.

Além das descrições da cultura antropofágica, raros vestígios podem ser associados aos Tupinambás do início da invasão portuguesa. No censo demográfico de 2010, o IBGE analisou os troncos das etnias e registrou estatisticamente a existência dos Tupinambás, sendo uma população de cerca de 5.500 indivíduos em Olivença (BA).

Apesar de ser um dado relativamente recente, estudos sobre a herança cultural destes índios ainda são raros.

E no fim da história, não seria, segundo os portugueses, o rapto da índia tal qual Helena de Tróia uma busca do pensamento eurocêntrico para entender e justificar o status quo de um ciclo de guerras sem fim?

 

Bibliografia

__________________________. Revista do Instituto Histórico e Geographico do Brazil. TOMO 1. 3ª edição, 1908. pp 156 a 177.

AGNOLIN, A. Antropofagia ritual e identidade cultural entre os Tupinambá. Trabalho extraído da tese de Doutorado, entitulada O Apetite da Antropologia: o sabor antropofágico do saber antropológico. Alteridade e Identidade na cultura Tupinambá (Agnolin, 1998).

IBGE. Características Gerais dos indígenas. Censo Demografico 2010. 244p.

OLIVEIRA , D. Florestan Fernandes: A função social da guerra na sociedade Tupinambá. Revista Vernáculo 35(1). 5p.

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