Artistas viajantes mulheres, uma visão feminina sobre a ilustração botânica e etnográfica. Parte 1: Expedições Científicas

As expedições científicas são uma etapa natural do processo de transformar a natureza em ciência. Para que isto ocorresse, uma equipe não era formada apenas por estudiosos, mas também por artistas que acompanhavam estas expedições documentando, das mais variadas formas de registro, o ambiente e as culturas que se apresentam.

Ainda nos séculos XVI e XVII, após o conhecimento do Novo Mundo pela Europa, surgiram os chamados Gabinetes de Curiosidades, que eram lugares de memória por excelência, com pensamento enciclopedista de se ter ao alcance dos olhos tudo o que existe em lugares distantes e desconhecidos (POSSAS, 2005). Nos séculos XVIII e XIX, esses gabinetes foram se modificando através do ordenamento e dos sistemas de classificação, entre eles o Sistema Naturae de Lineu, até chegarem ao estágio de organização de coleções específicas destinadas ao estudo e investigação de espécimes.

Deste estágio, na estruturação de espaços maiores e mais específicos em seus temas, com estudos mais aprofundados, classificação e ordenamento oficial, temos o surgimento dos museus de história natural, com a guarda de todo o conhecimento científico existente até então.

Em relação às novas oportunidades vislumbradas pelas nações navegadoras a partir do século XVIII, estas aproveitaram de “maneira pragmática as oportunidades que agora entreviam, essas nações passaram a enviar expedições marítimas que combinavam a exploração geográfica com um trabalho cuidadosamente planejado por artistas a fim de que, com objetividade, fossem registradas formas desconhecidas da vida vegetal, animal e humana”. (ADES, 1997).

Quando há a citação de mulheres, estas são de classe media ou alta: nobres que acompanham os maridos em viagens diplomáticas, esposas de militares, oficiais da Marinha, comerciantes, cientistas, representantes consulares; jovens viajando com as famílias; viúvas em visita a familiares; senhoras viajando por problemas de saúde; artistas, cientistas ou jornalistas viajando por razoes profissionais; algumas mulheres nobres viajando com a família como turismo.   (LUBOWSKI-JAHN, 2012)(GAZZOLA, 2008).

Muito se tem falado sobre as chamadas expedições científicas e filosóficas. A expedição científica de Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland pela América espanhola compreendeu o período de 1799 e 1804. A história nos faz perceber que estas expedições fazem referência apenas a homens cientistas, exploradores e artistas. Isso nos leva ao entendimento errôneo que não houve participação feminina nestas viagens de vanguarda. Na América Latina ocorreram expedições cientificas com mulheres que não eram somente artistas e ilustradoras, mas também naturalistas da mais diferentes áreas. O questionamento a se fazer é porque estas mulheres naturalistas / artistas viajantes são invisíveis tanto nas divulgações científicas quanto nas exposições de arte.

Tanto na História da Ciência quanto na História da Arte, é difícil haver a lembrança imediata com mulheres cronistas viajantes, diferente do que ocorre com os homens na mesma posição. Segundo Vilas Boas & Outeirinho, “apenas nos lembrarmos delas numa ligação a figuras masculinas e num momento posterior à evocação desses viajantes-homens. Com efeito, elas são evocadas e resgatadas tantas vezes na condição de acompanhantes de, esposas de, irmãs ou filhas de….” (grifo nosso) (VILAS-BOAS; OUTEIRINHO, 2014).

Fora deste contexto patriarcal, temos a presença de duas artistas viajantes, naturalistas que viajaram pela América Latina, sozinha como Marianne North, o à sombra do marido, como Maria Graham.

Os cronistas viajantes homens seguiam os preceitos de Humboldt, que era a pintura de paisagem, com a representação da vegetação com maior proporção da paisagem e diversidade ressaltando a composição com diversas plantas, mas com menos detalhes das espécies. Por outro lado, as mulheres cronistas viajantes favoreciam em seus estudos outros assuntos, incluindo etnografia, geologia, arqueologia, e o estudo botânico individualizado. (LUBOWSKI-JAHN, 2012).

Esta visão da individualidade do estudo fica claro quando vemos na pintura de Marianne North o detalhe da imagem 1, onde ela descreve a borboleta como um parasita da faia, bem como as inflorescências descritas por Maria Graham na imagem 2.

Nos próximos dois posts iremos conversar mais sobre cada uma destas artistas viajantes. Dê asas à sua imaginação e e até lá!

Bibliografia:

ADES, Dawn. Arte na America Latina. Cosac & Naif Edições. 1997.

BANDEIRA, Julio. A viagem ao Brasil de Marianne North. Editora Sextante. 2012.

GAZZOLA, Ana Almeida.  The Brazil of Marianne North: Memories of an English Traveler. Estudos Feministas, 2008, Vol.16(3), p.1031

LUBOWSKI-JAHN, A. Picturing the Americas After Humboldt: The Art of Women Travelers. Review: Literature and Arts of the Americas, [S. l.], v. 45, n. 1, p. 97–105, maio 2012.

POSSAS, Helga C. G. Classificar e ordenar: os gabinetes de curiosidades e a história natural. In: Museus: dos gabinetes de curiosidade à museologia moderna. Argentvm Editora. Belo Horizonte. 2005. P. 151 a 162.

VILAS-BOAS, G.; OUTEIRINHO, M. de F. Da literatura de viagens no feminino – notas de leitura. Cadernos de Literatura Comparada, Portugal, v. 30, n. 6, p. 217–227, 2014.

Prometeu e sua Bioarte

esse post foi escrito por mim para a disciplina Arte, Mídias e Tecnologias da prof. Aline Couri,da Escola de Belas Artes da UFRJ. link original do blog : https://artemidiastec.wordpress.com/

As criaturas que você viu são animais recortados e esculpidos até adquirirem novas formas. Foi a isto, ao estudo da plasticidade das formas vivas, que dediquei minha vida (A Ilha do Dr. Moreau, H.G.Wells)

A biossegurança de atividades relacionadas a organismos geneticamente modificados (OGM) passa por um rigoroso código de ética. No Brasil, é vedado a pessoas físicas qualquer tipo de atividades e projetos envolvendo OGM e seus derivados, segundo preconiza a lei nº 11.105/2005. Esta lei tem sua aplicação a partir do Protocolo de Cartagena e da Convenção de Diversidade Biológica – CDB, ambas sendo resoluções da Organização das Nações Unidas sobre a proteção e os riscos envolvidos em atividades de organismos vivos geneticamente modificados (OVM).

Se todas as atividades com OVM são rigorosamente controladas, seja no âmbito da pesquisa, produção, transporte ou comercialização, porque estes critérios não são seguidos por artistas? Por ser arte, ela se torna menos perigosa? Os organismos que são manipulados, o artista e ao público são menos suscetíveis a riscos?

A bioarte trata de uma arte que se apropria de conhecimentos da ciência e tecnologia, envolvendo questões sobre vida artificial, cibernética e manipulação biológica da vida. (Cardoso & Araujo, 2018). A bioarte que conta com manipulação biológica da vida é um campo nebuloso onde o artista não se vê como um profissional da atividade de OVM.

GFP Bunny

O artista Eduardo Kac diz em uma entrevista em 2006 que “Não vejo necessidade de uma legislação especial para o artista. Acho que basta reconhecer o direito que o artista tem de trabalhar com materiais, materiais que se integram ao fazer da arte”.

A manipulação de um organismo vivo por parte do artista não pode ser colocada fora de um debate ético e uma regulamentação pois assim como no campo científico, não há a certeza de que os riscos sejam aceitáveis.

o que fazer depois de criar?

O trabalho GFP Bunny, que insere a proteína fluorescente verde, proteína isolada da água viva da espécie Aequorea Victoria. Não houve nenhuma discussão sobre a questão ética da modificação de um organismo vivo, como se é cobrado assertivamente com as atividades científicas e industriais. A entrevista a Dolores Galindo nos diz que “ao utilizar um coelho na concepção da obra GFP Bunny, o artista infringe a ética com relação à vida do animal, sendo sua ação questionável. O artista Eduardo Kac defendeu-se das criticas ao seu trabalho, justificando que o coelho seria incorporado a sua família como bichinho de estimação e receberia todo cuidado necessário ao seu bem estar.”

e se for uma superbactéria?

No trabalho intitulado “Genesis”, há uma aleatoriedade na manipulação genética. O trabalho consiste em elaborar um gene sintético que foi criado por Kac traduzindo uma frase do livro bíblico de Gênesis para o Código Morse e convertendo o Código Morse em pares de bases de DNA de acordo com um princípio de conversão especialmente desenvolvido pelo artista para este trabalho. Esse DNA foi inserido em uma bactéria, sem que houvesse qualquer pesquisa no sentido de saber quais seriam os impactos dessa inserção em um organismo vivo.

Genesis

Desta forma, na manipulação de organismos vivos modificados,  deve ser exaustivamente discutida, e a arte, como parte integrante da sociedade, deve contemplada nos protocolos legais de biossegurança, para que estas atividades sejam realizadas com o menor risco possível, e levando em conta o bem-estar dos organismos, pra que não se extrapole os limites da ética no campo da arte.

Referencias

Cardoso, C.O. & Araújo, Y.R.G. Sistemas Vivos Naturais e Artificiais em Bioarte. DAPesquisa , 01 October 2018, Vol.5(7), pp.222-229.

KAC, E.: A arte transgênica. (Entrevista concedida a Dolores Galindo). História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 13 (suplemento), p. 247-56, outubro 2006.

KAC, E. http://www.ekac.org/

Ministério da Saúde. Marco Legal Brasileiro sobre Organismos Geneticamente Modificados. 222p. Brasilia, DF. 2010.