Normalidade e Loucura – Nise da Silveira e o ateliê do Hospital Pedro II entre a arte e a ciência

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas” (Nise da Silveira)

Nise da Silveira, em julho de 1970. Acervo Arquivo Nacional.
Nise da Silveira, em julho de 1970.
Acervo Arquivo Nacional.

A abertura de espaços de exposição e museus foi um ponto crucial para a exibição dos artistas modernos figurativos ou concretos no país (VILLAS BOAS, 2015). Neste momento os artistas se rebelavam contra as formalidades da Escola Nacional de Belas Artes.

Enquanto o movimento artístico discute seu papel no modernismo e publica manifestos sobre sua arte, em 1946, no bairro do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, inicia-se o projeto do ateliê da Seção de Terapêutica Ocupacional do Hospital Psiquiátrico Pedro II, alicerçado na luta antimanicomial de sua fundadora – Nise da Silveira – que não aceitava as formas de tratamento psiquiátrico da época, como eletrochoque, lobotomia e coma insulínico, e que propôs um tratamento com diferentes atividades, dentre eles pintura e modelagem.

A produção destes ateliês foi tão abundante que em 1952 foi inaugurado o Museu de Imagens do Inconsciente. Atualmente o museu conta com um acervo de cerca de 350 mil obras.

Mais do que um museu, a instituição é um centro de pesquisas de estudos psicológicos /psiquiátricos, e todo o acervo é composto do material dos pacientes. Neste caminho, a instituição apresentou ao mundo das artes grandes artistas, inclusive com exposição na 11ª Exposição Bienal de Berlim.  O ateliê tornou-se peça-chave na realização do projeto concretista, ao ir contra o academicismo da Escola de Belas Artes e o modernismo da Semana de Arte Moderna (VILLAS BÔAS, 2008)

A união da arte com a ciência através da terapia ocupacional permitiu amenizar a dor psíquica de pessoas com transtornos mentais e nos revela a extraordinária potência da criação.  O crítico de arte Mario Pedrosa nos diz que uma das funções mais poderosas da arte é a revelação do inconsciente e que as imagens do inconsciente sejam apenas linguagens simbólicas, nada impede que elas sejam harmoniosas, sedutoras, dramáticas, vivas ou belas, constituindo em si verdadeira obra de arte (SILVEIRA, 1987).

Pedrosa acompanhou a trajetória artística do ateliê do Hospital Pedro II, e em seu ensaio classificando esta arte como “arte virgem”, realizada por criadores espontâneos que não seguem regras clássicas ou estilos. Assim, elementos como a forma e a subjetividade do artista, característica da arte virgem, é
onde se estabelece a relação que encontra a verdadeira compreensão da arte moderna.

Nas primeiras exposições dos pacientes (1947 e 1949), os temas das discussões não passavam pelo modernismo, mas pelos limites entre normalidade e anormalidade, arte e razão, academicismo e experimentação (VILLAS BOAS, 2015).

No campo da abstração e da geometria, do ponto de vista psiquiátrico a pintura de um espaço pode representar a busca de um espaço próprio. Na pintura há a busca da conexão entre um espaço interno e um externo. O portador de transtornos mentais vive entre estes dois mundos, o seu interior e o de relação com o mundo. Há uma tentativa de recuperar a realidade.

Assim, objetos e cenários que para artistas não portadores de transtornos mentais possam ser apenas representações de uma realidade, para os artistas esquizofrênicos estes mesmos objetos/cenários podem ser uma busca de permanecer em contato com a realidade.

Na produção dos pacientes esquizofrênicos, há a quase ausência de figuras humanas, predominando a abstração e o geometrismo, demonstrando a dissolução da realidade, pelo esfriamento da afetividade e desligamento cada vez maior do mundo real (SILVEIRA, 1981).

Diferente de artistas “normais”, suas obras não seguem estilos, mas oscilam da abstração ao figurativo de acordo com sua visão de mundo e seu mundo interior.

Já a geometrização tem relação com o esforço de apaziguar o caos interno e a busca de refúgios em construções estáveis. Dentre as formas mais utilizadas, se encontra o círculo.

Em relação com a experiência da espacialidade, essa vivencia é de extrema importância, pois demonstra como o paciente se relaciona como espaço ao seu redor e seu espaço interior. Isto é percebido pela nitidez dos contornos e pela claridade dos espaços.

Fernando Diniz, um paciente da seção terapêutica ocupacional, internado com a idade de 31 anos, fazia parte do ateliê de pintura do Hospital Pedro II / Museu do Inconsciente. Em seus primeiros momentos no ateliê, ele não levantava a cabeça e sua voz baixa mal se ouvia. Segundo SILVEIRA (1981), ao iniciar suas atividades no ateliê seu tumulto interior era tão intenso que suas pinturas eram caóticas. Com a evolução da terapia, suas produções passam do caos ao figurativo, esforçando-se para construir composições. Analisando o conjunto da obra, observa-se quando há uma recaída no quadro médico de Fernando, quando suas pinturas retornam ao caos inicial.

Quanto à beleza de sua obra, ele afirmava que “não sou eu, são as tintas”. Como artista transitava entre o figurativo e o abstrato, com estruturas de composição das mais simples às mais complexas. Sua produção no museu é estimada em cerca de 30 mil obras: telas, desenhos, tapetes, modelagens (FERNANDO DINIZ – CINQUENTENÁRIO DO MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE, 2002).

Fernando Diniz (1953) óleo sobre tela, 45,7cm X 37,7cm

Com relação à sua obra acima, a pintura de uma sala, Fernando Diniz disse o seguinte comentário: “é uma sala. É um cantinho de sala. Se tiver grande a gente vai se perder”.

Para termos uma visão do inconsciente do esquizofrênico, há a necessidade de analisar o conjunto da obra, pois as oscilações da psique dos indivíduos são rotineiras. Mas para este ensaio, será utilizada apenas uma obra, com características mais figurativas.

Podemos perceber nesta tela o traço vigoroso em objetos comuns como o sofá e o quadro. Cortinas, abajures, mesinhas não possuem traços tão marcados. O artista quer estabelecer uma “solidez real” com objetos de seu conhecimento. A intensidade da cor vermelha demonstra uma visão tumultuada, caótica (SILVEIRA, 1981) e a marrom nos chama atenção, pois segundo o teste das pirâmides coloridas de Pfister, utilizada como auxiliar para diagnósticos de transtornos mentais, pacientes com transtorno obsessivo compulsivo apresenta um aumento significativo no uso da cor marrom(AMARAL; SILVA; PRIMI, 2002). AMARAL et al também nos diz que “ ao considerarmos as cores de freqüência absoluta, observamos que vermelho e marrom são freqüentemente utilizados nas três pirâmides executadas pelos pacientes, e que o mesmo não ocorre com o grupo de não-pacientes”. (AMARAL, Anna Elisa de Villemor et al., 2005).

Como vimos, as obras analisadas do Museu das Imagens do Inconsciente não podem ser analisadas apenas do ponto de vista estético e artístico, mas para compreender estas obras, há a necessidade de entrar no mundo de cada artista.

Bibliografia

AMARAL, Anna Elisa de Vilemor; SILVA, T. C. da; PRIMI, R. O Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister e o transtorno obsessivo compulsivo. Avaliação Psicológica, Porto Alegre, v. 1, n. 2, p. 133–139, nov. 2002.

AMARAL, Anna Elisa de Villemor et al. O teste de Pfister e sua contribuição para diagnóstico da esquizofrenia. Revista do Departamento de Psicologia. UFF, [S. l.], v. 17, n. 2, p. 89–98, dez. 2005.

FERNANDO DINIZ – CINQUENTENÁRIO DO MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE. 2002. Ministério a Saúde. [Governamental]. Disponível em: http://www.ccms.saude.gov.br/cinquentenariodomuseu/fernando-diniz.php. Acesso em: 4 mar. 2021.

SILVEIRA, N. da. Imagens do inconsciente. [S. l.]: Alhambra, 1981.

SILVEIRA, N. da. Os Inumeráveis Estados do Ser. Rio de Janeiro: Museu da Imagem do Inconsciente, 1987.

VILLAS BOAS, G. K. Concretismo. Sobre a arte brasileira. da pré-história aos anos 1960. São Paulo: SESC, 2015. p. 264–291.

O Êxtase da Sociedade Contemporânea – Andy Warhol como profeta das redes sociais

No futuro todo mundo será famoso por quinze minutos (Andy Warhol)


Essa profecia é mais atual do que nunca no mundo contemporâneo, onde as redes sociais invadem nossas casas e nossas mentes diariamente, nos bombardeando com novos hieróglifos (emojis) e imagens.


A modificação radical de nossa realidade teve seu início na década de 2000, quando foram lançadas as três maiores redes sociais da atualidade. Em um período de pouco mais de 5 anos, há o surgimento do Facebook (2004), do Twitter (2006) e do Instagram (2010). Embora haja tantas outras redes, estas três praticamente dominam o mercado virtual. E com estas redes, o mundo se espremeu em um smartphone, onde nossos dedos se acostumaram a rolagem da tela como um ato inconsciente.

Estas redes oferecem a seus participantes a ilusão de se tornarem celebridades. O chamado digital influencer ou influenciador digital tem sido apontado como uma das profissões mais desejadas do momento. E para tanto, vemos nas ferramentas de buscadores incontáveis tutoriais de como se tornar um digital influencer, que ensina poses, filtros, temas, cronogramas, toda sorte de artifícios para que pareçamos “naturais” o suficiente para aumentar o número de seguidores.

Os registros do cotidiano deixam de ser pessoais para serem transformados em públicos, no desejo de se tornar uma celebridade em ascensão. Assim, o ato de ler um livro deixa de ser algo individual e introspectivo para ser compartilhado, curtido e comentado por milhares de desconhecidos. Sem nunca terem entrado na casa do influencer, os estranhos conhecem cada parte de sua sala, a cor da louça, o lençol da cama. Mas isto tudo é um produto, a vida é um produto. E para cada xícara de café despretensiosamente sorvida, há a marcação da origem da xícara.

Andy Warhol com “FLores” na Factory, 1964 – https://ilovewarhol.com/

Assim como a Factory, o estúdio de arte de Andy Warhol, onde as pessoas “encenavam-se a si mesmas”, essas redes revelam as construções das personagens destes formadores de opinião. Como os silk-screen de Warhol, estes aplicativos são carregados de lentes onde é possível mudar a cor dos olhos, suavizar as marcas de expressão, colorir o fundo, incluir sua própria trilha sonora, entre outros.


Outra questão envolvendo as redes sociais é o biopoder oferecido pelo marketing digital e pela estrutura do mundo corporativo. Como em um passe de mágica, as celebridades rejuvenescem anos em um simples procedimento, aparecem utilizando esta marca ou aquela maquiagem; experimentam comidas exóticas. Nada mais emocional para um seguidor do possuir algo de uma celebridade. Como um contágio impossível de deter, a publicação viraliza e o objeto se torna o novo sonho de consumo.

Os padrões de beleza estabelecidos pela mídia são os parâmetros almejados pela sociedade. No lugar de um DNA privilegiado, a beleza atual é obtida através de cirurgias plásticas e procedimentos estéticos igualando partes do rosto e do corpo às partes das celebridades. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica o Brasil se tornou o país que mais fez cirurgias plásticas no mundo(1). O próprio Warhol se submeteu a uma rinoplastia, tinha visitas regulares ao dermatologista e tinha um personal trainer nos anos 1980, tudo para deixá-lo “mais bonito para os negócios”.

Mas esta busca pela perfeição estética semelhante à da celebridade não é algo imposto ou repressivo, ela age de forma que o indivíduo sinta que há a necessidade das mudanças para se obter o sucesso demonstrado nas redes sociais. Segundo a autora o neoliberalismo opera mais sutilmente: faz com que internalizemos seus ideais. Entregar-se a eles pode ser mesmo experimentado como “diversão” ou “empoderamento”.

Tirando uma pequena parte de influenciadores que são pagos para associar seus nomes aos mais diversos produtos, a grande parte dos integrantes das redes promovem as marcas de graça, marcando-as ou com suas hashtags na esperança de aumentarem o numero de seguidores, curtidas e comentários, pois em uma cultura neoliberal, quando se trabalha duro há a recompensa do êxito de seus projetos. Assim como na Factory, há a busca da notoriedade pela simples associação com o capital simbólico da marca/status.

Na onda da exposição exacerbada e da repercussão nas redes sociais, os reality shows estão se tornaram uma febre no país. A sociedade acompanha com fervor o café da manhã, almoço, descanso, brigas de um grupo de pessoas em um local isolado, como se o mundo fosse a união de “1984” (romance de George Orwell) com o filme “A Vida de Truman” (direção Peter Weir, 1998). E de uma hora para outra, pessoas são alçadas à condição de celebridades, e suas contas nas redes sociais repercutem – positiva ou negativamente – os acontecimentos.

A rede social Twitter é um ótimo termômetro para descobrir os assuntos do momento e as tendências dentro da sociedade. Em 2020, dentre os 5 assuntos mais compartilhados do ano, vemos em primeiro lugar a morte do ator estadunidense Chadwick Boseman, em segundo lugar o grupo pop sul-coreano BTS. O COVID-19, a quarentena e o racismo estão entre os demais assuntos(2). Questões políticas e econômicas que atingem diretamente a sociedade não são citadas entre os temas.

Quando fazemos uma análise mais pontual dos últimos dias, temos como o assunto mais comentado uma briga ocorrida no dia 16/02 de um famoso reality show, com cerca de 680 mil tuites em menos de 12 horas. Segundo a autora, “Se descrevo Warhol como teórico e praticante da cultura de celebridades, é também porque sua obra encarna a mudança da “estrela” para a “celebridade”. Enquanto estrelas ainda eram valorizadas pelos resultados que obtinham na atuação, celebridades são admiradas,simplesmente, por existirem”.

Mas o que vemos nas redes sociais são apenas as máscaras midiáticas, diferentes do que elas são de fato. Publicar uma foto em uma espreguiçadeira lendo um livro não quer dizer afirmativamente que a leitura é o hobby mais querido. Pode ser uma jogada de marketing para atingir outro nicho com uma hashtag específica associada à imagem.

Um questionamento no texto é o que acontece quando a diferença entre “produtos” e “pessoa” entra em colapso e a sociedade não identifica a pessoa com o que ela representa para o público. Assim quando a celebridade exterioriza uma dualidade entre imagem e personalidade, perdas significativas na imagem podem ocorrer, consequentemente repercutir negativamente no mercado e em última instância nas marcas / empresas parceiras.

Na última semana, foi compartilhada exaustivamente a perda de contratos de uma celebridade atualmente em um reality show por ela se expressar de forma “politicamente incorreta” e agir de forma a entrar em choque com o produto associado à pessoa. Esta tomada de posição pela artista foi o suficiente para que contratos fossem suspensos de forma unilateral das empresas, pois a associação da imagem da marca a ser passada para a sociedade não pode sofrer arranhões.

Há que se manter as aparências a qualquer custo. A autora cita a obra Sixteen Jackies [Dezesseis Jackies] (1964) que “permite-nos ver Jackie em diferentes poses, sorrindo, com a cabeça abaixada, quase chorando mas tentando manter as aparências”.

E na sociedade contemporânea, onde as plataformas digitais se oferecem para todos indistintamente, o mundo das celebridades é o espaço, onde cada estrela pode ser fixa ou cadente, dependendo de como ela se apresenta ao público. E para manter o status quo, o mercado se retroalimenta, e as celebridades que trabalham arduamente para seu êxito se reinventam constantemente, como camaleões em diferentes cenários.

Post baseado no texto de

GRAW, Isabelle. Quando a vida sai para trabalhar: Andy Warhol. Ars, São Paulo, ano 15, n. 29, p. 244-261, 2017. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ars/article/view/131505/127941

(1)http://www2.cirurgiaplastica.org.br/blog/2020/02/13/lider-mundial
(2)https://www.istoedinheiro.com.br/veja-os-posts-mais-compartilhados-no-twitter-em-2020/