Sobre príncipes

Enquanto estava pelo aplicativo, tudo fluiu bem.
Procurei nas redes sociais como me comportar – incrível o que nos ensinam nas redes hoje em dia.
Fotos com filtros, sorrisos eternos de uma felicidade que está por vir.
Um tempo que não sei precisar. Minutos? Dias? Meses?
Finalmente tomamos coragem e saímos para tomar um chopp. Ansiedade a mil. Será que a roupa está boa? Será que a aparência sem filtro vai ser aceita? Usei tantos filtros dos mais diversos aplicativos durante esses meses que não sei mais quem sou.
Bom…já decidi! Vou com aquela roupa que você curtiu no app e me achou uma gata.
E assim chegamos ao barzinho, ainda de dia, eu muito solar.
A cada vírgula um chopp na intenção de me soltar, afinal estou tensa e quero conquistar você, que se apresentou forte e sensível ao mesmo tempo no app.

Após algum tempo de conversa e muitos chopps, tentei sempre me pronunciar ao seu favor, afinal a sua ex, que você viveu 18 anos entre idas e vindas, me pareceu uma megera!
E você, cheio de amor no peito, carente de afeto, tão vítima de uma mulher tão cruel, pintada de preto e branco em meia hora, conquistou meu coração.
Te conheço a duas horas pessoalmente, e sei que você é um anjo em terra – você me contou.
Me arrisco a te dar nosso primeiro beijo e você corresponde tímido a essa represa que rompeu de amores a um avatar que agora tem corpo.
– vamos sair daqui? (pergunta ele)
– sim, vamos.
– para onde?
– você escolhe…


Alguém tem uma idéia do que com esta mulher na mesa ao lado da minha?
Espero que ele realmente seja o príncipe, e não o algoz.

As lágrimas do mundo, as lágrimas do meu mundo

Na varanda de casa, o barulho da chuva acalenta o vai-e-vem da rede, que de forma cadenciada embala meu corpo enquanto olho para as gotas que displicentemente caem pelas telhas.

Com a chuva intensa, a rua fica mais silenciosa ainda, permitindo que eu ouça meus próprios pensamentos.

E ele foi longe, em um lugar de lutas, um lugar e um tempo onde cada dia era forjado a ferro. O caminho de uma mulher que foi educada para lutar por condições iguais, em todos os aspectos. Meus pais sabiam o espírito que receberam em casa, e me ensinaram que lutar pelos meus direitos não tira o direito de ninguém, afinal, o direito à igualdade não é uma pizza, onde quanto maior a fatia do direito de um, menor a do outro.

Yerres, Efeito da Chuva – Gustav Caillebotte, 1875

O discurso da igualdade é como a gota de chuva que agora cai no meu jardim. Forte após o inicio, vai se enfraquencendo com o tempo, até se invisibilizar.

Muitos dizem que o discurso é agressivo, o que não é verdade. O discurso é assertivo, de quem sempre esbarra na barreira invisível de ser mulher.

O nosso “basta” é visto como nervoso, estresse, agressividade, histeria. E aquela pergunta sempre está no ar… será que ela está de TPM?

Mas se há algo que te afirmo, é que acima de todas as batalhas, todas as cicatrizes, a minha alma ainda busca a poesia que existe no mundo, que existe no outro. E assim termino este post me apresentando…

Aqui está minha vida – esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz – esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor – este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança – este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento
.

MEIRELES, C. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

(O Beijo – Gustave Klimt, 1907)