Nada é Mais Efêmero que o Presente

Minha mãe sempre gostou de se arrumar. Sentia prazer em comprar roupas, sapatos, bijus. Armário cheio, várias roupas com etiqueta esperando a ocasião perfeita para aquela calça, aquele sapato, aquele lencinho.

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De repente veio o AVC, e aquela mulher vaidosa passou a usar roupas mais de acordo com o homecare. E assim se passaram tres meses… Veio o desencarne. Ela se foi, suas roupas ficaram. Ainda estão lá em sua casa. Etiquetas, selos, embrulhos.

Penso muito sobre isso desde então. Tenho algumas roupas com etiqueta e olho para elas diariamente – vou fazer diferente. Para mim todos os dias serão especiais. A partir de agora, é especial estar viva, é especial sair de casa todos os dias e comemorar a vida (pós-COVID19, claro!).

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Essa é minha proposta. Sair dessa sucessão de episódios-chave na vida melhor do que entrei.

Chá Inglês

Hoje foi mais um dia atípico no Rio de Janeiro. Frio e chuva em pleno verão. Como não desconfiei dos sinais de que a partir de agora a vida seria diferente?

E com este tempinho, me deu aquela vontade de tomar um chá inglês quentinho, junto com aquelas prosas que duravam horas na mesa da copa.

E novembro, quando você não conseguiu mais levantar sua caneca de gatinhos, que a mão já estava enfraquecida pela luta da vida, eu comprei para nós dois conjuntos de chá, um rosa e outro amarelo, para que você pudesse erguer uma xícara mais leve. De novo você não conseguiu…

Para tentar te alegrar nossa hora do chá, já que sua caneca de gatinhos estava com o peso da doença, te comprei um infusor de gatinhos, e voce sorriu. Pendurava ele na xícara mesmo vazia. Era o Wlad tomando seu chá.

E hoje, pela primeira vez tomei meu chá sozinha, na xícara rosa com o gatinho olhando para mim. Não consegui ficar nem cinco minutos à mesa. Sua xícara está vazia, e o sabor se foi junto com a cor amarela.

Mais cedo ou mais tarde irei me acostumar a apenas uma xícara na mesa, mas me desculpe… não foi hoje.