Chá Inglês

Hoje foi mais um dia atípico no Rio de Janeiro. Frio e chuva em pleno verão. Como não desconfiei dos sinais de que a partir de agora a vida seria diferente?

E com este tempinho, me deu aquela vontade de tomar um chá inglês quentinho, junto com aquelas prosas que duravam horas na mesa da copa.

E novembro, quando você não conseguiu mais levantar sua caneca de gatinhos, que a mão já estava enfraquecida pela luta da vida, eu comprei para nós dois conjuntos de chá, um rosa e outro amarelo, para que você pudesse erguer uma xícara mais leve. De novo você não conseguiu…

Para tentar te alegrar nossa hora do chá, já que sua caneca de gatinhos estava com o peso da doença, te comprei um infusor de gatinhos, e voce sorriu. Pendurava ele na xícara mesmo vazia. Era o Wlad tomando seu chá.

E hoje, pela primeira vez tomei meu chá sozinha, na xícara rosa com o gatinho olhando para mim. Não consegui ficar nem cinco minutos à mesa. Sua xícara está vazia, e o sabor se foi junto com a cor amarela.

Mais cedo ou mais tarde irei me acostumar a apenas uma xícara na mesa, mas me desculpe… não foi hoje.

Experiência e Liderança

restauração pintura séc 19

Esta semana eu li uma postagem que falava sobre a conclusão de uma grande empresa de consultoria que dizia estar faltando líderes. E ao analisar o texto, vi uma questão que percebo como uma das mais comuns de nosso mercado, embora digam que não (é antiético!) – a idade.

As empresas e os recrutadores querem líderes sim, mas de no máximo seus 40-45 anos. E assim, muitas vezes o que se vê são ótimos técnicos sendo péssimos chefes. Isso porque líder e chefe são duas definições totalmente diferentes. E aí as empresas reclamam que não conseguem formar jovens líderes.

Sabe por quê? Porque líder se faz pelo que ele se torna na sua trajetória e não pelo tempo de experiência. Pela média, um profissional se forma na faculdade com 25 anos (mais ou menos), começa logo a trabalhar como trainee, depois de x anos vai a júnior, depois a pleno, depois… depois… depois…

Neste processo ele pode vir a se tornar um excelente técnico, capaz, inovador. Com o tempo ele vai se aperfeiçoando cada vez mais, e cada problema leva a uma diferente solução – aprende o pulo do gato.

Mas o líder vai se formando com o desenvolvimento da inteligência emocional, da empatia, da arte da negociação, do aprender a prestar atenção, e da resiliência. E isso se consegue com tempo, com muito tempo. O ótimo técnico pode fazer curso para ouvir o outro, de comunicação não violenta, de estratégia de abordagens, o curso que for. Mas isso é teoria e o exercício do curso é controlado, hipotético.

Ah… então me diga, onde aprende isso? Com a vida, com as vivências diárias. E mais, com o saber lidar com os diferentes o longo dos anos. Saber lidar com o síndico do seu prédio, saber lidar com o guarda de trânsito, saber dialogar domingo à tarde enquanto um filho quer ir ao cinema e o outro quer ficar em casa jogando videogame, ou quando os dois querem o último pedaço da torta. Escolher entre financiar o carro em 36 vezes ou esperar um pouco no ônibus superlotado e diminuir as prestações para apenas 24.

Isso se aprende com a vivência, e vivência significa que o tempo passa. Que o grisalho aparece, e que os 40 anos ainda é pouco. Alexandre se tornou o grande porque foi educado pelo velho Aristóteles. E sabe aquele grande artilheiro que vale milhões de euros? Ele tem na beira do campo seu “professor” gritando “pela esquerda, recua, passa bola pra fulano”.

O que vejo é que em pleno século XXI, com todos os avanços da medicina e do bem-estar, o profissional com cerca de 50 anos tem muita saúde, garra e disposição para produzir, liderar, construir. Então qual a questão das empresas de contratar estes profissionais?

Enquanto que estes profissionais “cinquentões” estão no séc. XXI com todo gás, as empresas e os recrutadores ainda estão chegando no séc. XV, quando os Medici encomendavam nos ateliês várias pinturas que tinham pinceladas dos jovens gênios, mas quem chamou para si a responsabilidade de pintar a Vênus, foi Botticelli (com 41 anos – já velho para os padrões da época).

E quanto ao “saber fazer”, à experiência adquirida, você deixaria qualquer um restaurar uma obra de arte?