Artistas que amo #2: Marianne North

Marianne_North01Muito pouco se escuta falar desta fantástica mulher – Marianne North. Nascida em 1830 na Inglaterra vitoriana, esta mulher teve seus objetivos bastante definidos: queria participar de expedições científicas como pintora / ilustradora botânica.

Alheia à sociedade, que impunha a mulher o papel de mãe e esposa, ela se aventurou por vários territórios desconhecidos, como o nosso Brasil em 1872. Entre 1871 e 1885 participou de algumas expedições, deixando um legado que cerca de 800 pinturas, doadas ao Royal Botanic Gardens, em Kew. Destas viagens também existem 3 diários publicados.

Sua jornada começa com uma promessa no leito de morte de sua mãe, que pediu que ela não abandonasse seu pai sozinho. Como seu pai viajava bastante, ela o acompanhou durante 14 anos em outros lugares, como o Oriente Médio. Após a morte do pai em 1869, ela saiu a viajar pelo mundo, pintando “espécies exóticas” nas mais diferentes colônias / países dos trópicos.

O trabalho desta pioneira vitoriana no campo da Botânica e das Artes deve ser exaltado. Poucas mulheres deste período trabalharam em prol da Ciência de da Arte de maneira tão bela. Podemos imaginar o que é preconceito da sociedade contra uma mulher solteira, viajando pelas Américas e Africa em expedições formadas por homens, desenvolvendo um trabalho riquíssimo em termos de ilustração.

Era fácil ser Debret, era fácil de Rugendas. Mas com certeza não era fácil ser Marianne North.

A ela, todo meu respeito!

A Pintura Naturalista dos Artistas Viajantes como Ponto de Convergência entre a Ciência e a Arte

ESPÉCIME Vegetal. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: . Acesso em: 28 de Fev. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7Na era pré-fotográfica, todo o reconhecimento iconográfico de geografia, topografia, fauna e flora e de populações e culturas existentes, era executado pelos chamados “artistas viajantes”. Desde o inicio da colonização do Brasil estes artistas retrataram todas as riquezas e costumes da nosso país.
A arte, a partir do renascimento, passou por uma grande evolução em sua técnica , na valorização da imagem didática e documental, onde vemos um grande avanço na História Natural e Anatomia. Neste mesmo período de surgimento das artes e das ciências como disciplina, acontecia, através do descobrimento das Américas, um mundo novo e exótico de indivíduos, plantas e animais a serem descoberto, pesquisados, catalogados e identificados.
Na Europa, ainda nos setecentos, o iluminismo surge a pleno vapor com sua revolução científica e filosófica que mudaria a história do mundo. Seguindo a evolução da Ciência, vemos o Positivismo e o alavancar de suas áreas de conhecimento, produzindo cada vez mais dados científicos das Américas e África.
Desde a primeira expedição exploradora ao Brasil (1501 a 1502), com a presença de Américo Vespúcio, que existem representações das descobertas no país, incluindo a  antropofagia. Do período colonial até o republicano diversas expedições exploratórias e científicas foram realizadas.
Nestas expedições sempre existia a função dos artistas viajantes, artistas naturalistas que
retratavam as novas descobertas. Segundo a definição de MATTOS (2007):

“o conceito encerra a idéia de um registro objetivo da
natureza pitoresca dos trópicos. Ao abordarmos as produções
desses artistas, portanto, tendemos a tratá-la antes de tudo
como documento, pensando-as fora do contexto da história da
arte, isto é, sem levar em conta o seu estatuto de imagem
(exatamente esse efeito, como vimos, é próprio à posição do
conceito de “viajante” com relação à história da arte
tradicional). Indício desse tratamento é a tendência a não
discriminar a produção de “artistas viajantes” daquela de
outros “viajantes”, naturalistas, militares, diletantes, etc.”

MACACO . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: . Acesso em: 28 de Fev. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7Um evento importante, foi a chegada da Expedição Viagem Filosófica, com os artistas viajantes José Joaquim Freire e José Codina, que são desenhista topográfico e de História Natural, além de aquarelista. Freire, junto com Codina são enviados aos estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso, a mando do Real Gabinete de História Natural do Museu de Ajuda de Lisboa.
No campo da arte, a expedição mais difundida foi a Expedição Langsdorff, ocorrida entre 1824 e 1829, onde três artistas fizeram parte desta em diferentes períodos; sendo eles Johann Moritz Rugendas, Aimé-Adrien Taunay e Hercules Florence. Estes artistas pintavam o exotismo da paisagem, da fauna e flora e retratavam os costumes de acordo com o estilo da época. Estes artistas tinham como objetivo “pintar a realidade brasileira”

Neste período pré-fotográfico, os artistas se especializavam em anatomia, topografia e coloração, para “copiar exatamente a natureza sem pretenderem corrigir ou adorna-la, como alguns desenhistas fazem, acrescentando-lhes adornos produzidos pela sua imaginação” (FARIAS, 1979).
Os artista trabalhavam em equipe com os naturalistas, em uma colaboração entre sábios e desenhistas. É neste intercâmbio que a arte sai do simbólico / religioso ou da função meramente artística e acompanha a evolução do espírito científico empenhado em apreender experimentalmente a natureza e seus fenômenos.
Uma mudança significativa nesta transição fica a cargo da ilustração botânica, que desde o início das expressões artísticas possui uma antiga tradição relacionada com o significado simbólico atribuído a flores e frutos, como pinturas de mitologias, Livro das Horas ou de Naturezas Morta, comum nos séculos XV a XVII. A versão científica destas representações estão dispostas nos herbários e florilégios, que são códices botânicos cujas plantas são desenhadas pelos artistas e que possuem a descrição anatômica dos naturalistas e práticos médicos (physician).
A pintura paisagística evolui para o paisagismo científico, onde não existe apenas a representação pictórica e pessoal das paisagens, mas as espécies descobertas e catalogadas são retratadas no seu habitat natural.
Não basta pintar apenas o “microcosmos”, as plantas, animais e seus detalhes, mas como eles interagem com a Natureza, e como a Natureza se apresenta nos diversos ecossistemas.

 

Bibliografia:

[FREIRE, Joaquim José]. Bibliografia Geral. Disponível em <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa23697/jose-joaquim-freire&gt;. Acesso em 11 fev. 2018

[HISTÓRIA das explorações cietíficas no Brasil: Século XV I : primeiras explorações : O litoral : Cartografia quientista : Gabriel Soares de Sousa : Viajantes e aventureiros : O litoral brasileiro na cartografia quientista]. [S.l.: s.n.], [19–?]. 177p. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1435010/mss1435010.pdf&gt;. Acesso em: 8 fev. 2018.

[LISTA dos lugares pelos quais passaram viajantes em Minas Gerais.]. [S.l.: s.n.]. 2 p. Disponível em: <http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.asp?codigo_sophia=76575&gt;. Acesso em: 8 fev. 2018.

CARNEIRO, Newton. Rugendas no Brasil. Livraria Cosmos Editora. 1979. 225p

FARIA, Miguel Figueira. Jose Joaquim Freire (1760-1847) desenhador topógrafo e de história natural. Universidade Autonoma de Lisboa. 2001. 265p

MATTOS, C.V. Artistas viajantes nas fronteiras da história da arte. III Encontro de História da Arte – IFCH / UNICAMP. 409 a 417. 2007.

MUSEUM NATIONAL D’HISTOIRE NATURELLE (França). Instrucção para os viajantes e empregados nas colonias sôbre a maneira de colher, conservar, e remetter os objectos de historia natural. Arranjada pelo administração do R. Museu de História Natural de Paris trad. por ordem de sua Magestade Fidelissima… do original francez impresso em 1818. Rio de Janeiro, RJ: Impr. Régia, 1819. lvi, 77 p., 21 cm. Disponível em: <http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.asp?codigo_sophia=14406&gt;. Acesso em: 8 fev. 2018