Os Grandes Felinos e o Sagrado nas Culturas Pré Colombianas

As figuras dos grandes felinos sempre estiveram associadas a sucessão hereditária das elites e dos governos, às guerra, aos rituais de sacrifícios e à cosmogonia das culturas pré colombianas. Assim sendo este estudo conceituará o papel destes animais, em particular do jaguar e do puma nas culturas pré colombianas e sua evolução enquanto divindade.

Como estes animais foram se transmutando durante os séculos entre as várias culturas que existiam na região mesoamericana e andina, desde os primeiros habitantes do continente? Como os grandes felinos foram associados a sacrifícios sangrentos, má formação genética e ao Universo que ora fazemos parte?

Para demonstrar este percurso através de objetos e monumentos, irei trabalhar temporalmente com as imagens dos felinos a partir do Horizonte Formativo com os Olmecas, no México até a construção inca de Cuzco, no Peru.

“Não há povo tão primitivo, tão bárbaro que não admita a existência de deuses, ainda que se engane sobre a sua natureza.” (Cícero)

Todos as civilizações têm a experiência do Sagrado. O Sagrado manifesta-se fora da rotina e do cotidiano. O Sagrado difere do Profano. No Sagrado, a pedra ou a árvore deixam de ser apenas parte da natureza para se transmutarem no divino.

Estabelece-se então a cosmogonia deste povo, onde a ordem e a harmonia são instituídas pelas divindades. Para que o mundo continue neste padrão de organização é necessário que sejam criados mitos, ritos e cerimônias, para que o indivíduo possa lidar com o desconhecido e com o medo, tornando seu mundo mais seguro.

SANTOS JUNIOR (2009) afirma que “A concepção animista desse sistema ideológico apresenta como gérmen a tradição coletora e caçadora, baseada em crenças nos espíritos e forças transcendentes que regulavam as mudanças astronômicas, naturais e sociais, sobretudo os de subsistência de seu sistema nômade”

Com processo de fixação das populações, há o desenvolvimento do conhecimento empírico sobre os ciclos solares / lunares, período de plantio e colheita, chuva e seca, entre outros. Com o sepultamento dos antepassados, começa a ser definido um novo conjunto de divindades e consequentemente de rituais. Neste processo vão sendo criados novas visões do Sagrado a partir de novas demandas culturais.

Nas culturas pré-colombianas, neste processo há o surgimento de uma tríade de divindades que representam sua cosmogonia. Esta tríade é composta de uma ave (águia ou condor), um grande felino (jaguar ou puma) e a serpente. Neste contexto, os governantes e xamãs1 são os intermediários entre estes animais e o homem comum. Eles transitam entre os dois mundos trabalhando para a harmonia cosmogônica do povo.

Se as aves representam a ligação com o “alto” e as serpentes com o mundo inferior, os grandes felinos são as divindades que habitam e protegem tudo o que ocorre no âmbito da terra, desde os ciclos das estações, as colheitas até a necessidade dos sacrifícios para que o cotidiano (colheitas prósperas, ausência de desastres naturais, entre outros).

Assim, pela ligação intrínseca entre os felinos e o que ocorre no cotidiano das civilizações pré colombianas, estes serão meu objeto de estudo. Esta sequência de um naturalismo na representação dos felinos até a antropomorfização destes em vestimentas e iconografias, demonstra a evolução destas civilizações e seu controle sobre o meio ambiente.

Os animais tanto representados nas suas formas naturais quanto nas antropomorfizadas, possuem atributos iconográficos que seguem um padrão, sendo estes: olhos com pupilas diferenciadas, sobrancelhas franzidas, narizes achatados, bocas com os lábios inferiores com uma concavidade para baixo. Segundo GHELLER (2013) “este universo iconográfico revela uma ideologia religiosa de deuses agressivos e intimidadores, satisfeitos mediante liturgias que demandavam grandes sacrifícios e oferendas” (tradução livre).

Na região da Mesoamérica, no período formativo, encontra-se uma grande variedade de esculturas se reportando a uma cabeça antropomorfa com traços de jaguar. Estas figuras são denominadas “deus Jaguar”. Segundo CHOCANO (2007), este deus representa poderes sobrenaturais e controla os fenômenos naturais relacionados com as estações do ano. Partindo de sua figura naturalista o Jaguar tem uma transição que passa do animal propriamente dito à representação antropomórfica, com desenhos iconográficos repetitivos e uma maior elaboração da peça. Sua figura é inserida em vários contextos, tanto políticos quanto sociais e religiosos.

5 Máscara olmeca_pedra
Fig. 1 – Máscara Olmeca (http://research.mayavase.com/portfolio_hires.php?search=*Olmec*&date_added=&image=8062a&display=8&rowstart=216)

Como vemos na figura 1 a máscara de pedra Olmeca possui formas naturalistas. Esta máscara possui um nariz muito característico de felino; sua boca entreaberta possui lábios grossos. Na parte interna da boca existe uma fenda como se fossem presas posteriores. A máscara possui olhos amendoados e detalhes na testa como se fosse uma fenda.

Na figura 2 a peça é muito mais elaborada, sendo que já representa um jovem segurando um “bebê jaguar”. Na figura do jovem percebe-se claramente os olhos amendoados, a boca caída e uma forma corporal (meio que arredondada) que lembra um portador da Sindrome de Down. Nas pernas do jovem existem entalhes de seres sobrenaturais da cultura Olmeca. Pela posição do bebê jaguar no colo do jovem parece que este bebê possui má formação. Suas pernas não demonstram a existência de articulações que pudesse sustentar o corpo de forma ereta.

18 Las Limas_Monumento 1
Fig. 2 – Fig. 3 – Las Limas Monumentos 1 (http://www.flickr.com/photos/cadeva/52554665/in/set-1140091/)

 

Estes traços de felino são recorrentes na cultura Olmeca. Uma das explicações existentes é a de consanguinidade genética. Os nobres casavam entre si, e esta prática era a causa de deformações genéticas, incluindo síndrome de Dowm e espinha e crânio bífidos. Os bebês jaguar e jovens retratados possuem as mesmas características; sendo elas os olhos amendoados, lábios com concavidade para baixo e em muitas representações o crânio possui uma fenda, e corpo não está ereto nem com uma simetria corporal dentro da normalidade. Podendo ser estas má formações associadas aos nobres, estes indivíduos foram retratados como seres mágicos. A figura 3 temos três jovens com deformações físicas. Podemos visualizar uma iconografia de tatuagens / formas geométricas em seus corpos.

17 Las Bocas_Corcundas tatuados
Fig.2 Corcundas Olmecas (http://research.mayavase.com/portfolio_hires.php?search=*Olmec*&date_added=&image=2682&display=8&rowstart=24)

Os grandes felinos continuam se transmutando durante todas as culturas subsequentes das culturas meso-americanas. Na cultura zapoteca (600 a 800 a.C.) os grandes felinos se unem ao homem, e passam a fazer parte de sua vestimenta, em forma de mantos e toucados. Na figura 4 vemos um vaso efígie com uma mulher com um elmo de jaguar. Os detalhes da cerâmica sugerem que a mulher faz parte da elite, não apenas por ela estar com sua cabeça dentro da boca do jaguar, onde podemos visualizar toda a estrutura do felino, incluindo as presas superiores e inferiores e a língua. Segundo SERRANO (2007) a base da cerâmica onde a figura feminina está sentada representa uma montanha ou uma pirâmide, que talvez seja alusão ao conceito de elite, de nobreza.

mujerjaguarNas culturas andinas, estes animais também exercem grande influência. Na costa norte do Peru, temos a cultura Cupisnique, que se desenvolveu no período formativo entre os anos de 1.000 a 400 a.C. Este grupo possuía uma grande complexidade cultural e este é período dos grandes centros cerimoniais, observações astronômicas e das forças ocultas da natureza como geradores e mantenedoras das ordem natural da terra. São construídos grandes centros cerimoniais, na qual o mais famoso é o Chavin de Huantar, na entrada da Cordilheira dos Andes. A arte cupisnique é representada principalmente pelas cerâmicas, onde a figura dos felinos se encontram numa relação xamânica com o homem, em representações sobrenaturais. Percebe-se na literatura que não se afirma que o animal seja o jaguar ou o puma, mas denomina-se nesta região apenas como felino.

figura 5Na figura 5 vemos uma garrafa com asa em estribo que mostra o sacerdote transitando entre dois mundos, a do homem (à esquerda) e a do sobrenatural (à direita). Esta garrafa nos mostra que durante as cerimônias religiosas o xamã era o próprio felino. Neste período, além de cerâmica, estelas e outros objetos desta cultura, também foram encontrados tecidos pintados com motivos felinos. Na figura 6, o tecido mostra ao centro uma divindade com a iconografia característica dos felinos, sendo claramente identificados os olhos, a boca e as presas. Esta divindade carrega em cada uma das mãos uma animal parecido com serpentes, assim como na roupa.

figura6A cultura Tiahuanaco, que se desenvolveu ente o período dos séculos IV a XIII d.C. deixou em seu legado o uso da madeira. Segundo a história desta cultura, não mais se apresenta o jaguar (gênero panthera) ou um felino de uma forma geral, mas as divindade é definida como o gênero puma.

Embora estes dois gêneros de grandes felinos guardem grandes semelhanças entre si, eles possuem habitats diferentes, sendo que o puma está relacionado com grandes altitudes, como as Cordilheiras dos Andes.

figura7Assim, a figura 7 nos mostra uma escultura em madeira talhada com a face de um puma, apresentando pequenas variações nos detalhes escultóricos. Este objeto também possui no entorno da face do puma grupo iconográficos / geométricos entalhados.

As várias culturas pré colombianas manifestavam sua forte ligação com os felinos em todas as formas de material. Como demonstrado durante este ensaio, o uso destes materiais remontam desde as esculturas de pedra dos Olmecas ainda no período formativo, passando pela cerâmica, pela tecelagem, por madeira entre outros.

Apesar de todas estas peças demonstrarem esta relação dos felinos com o sagrado, com o conhecimento, geopolítica e religião, no meu entendimento a mais impressionante demonstração da importância do felino é maior que uma escultura em pedra, um templo ou qualquer outro monumento. Para mim esta relação sagrada tem seu ápice na arquitetura de uma cidade inteira, a cidade de Cuzco, no Perú. A CIDADE É O PUMA.

Coloco abaixo um trecho do livro “Arqueoastronomia Inka – Cusco, Cosmovisión y arquitectura mágica” do pesquisador Dante G. Salas Delgado (2011), que na página 156 nos diz:

Traço urbano da cidade sagrada cósmica, tem desenho urbano zoomorfo de forma e função astronômica.
Desenho arquitetônico sideral, está em contato direto com os eventos cósmicos da dança celestial.
Desenho do traço urbano totêmico cósmico, concordam com a medição científica do passo do tempo e do espaço.
Cuzco puma, tem plano arquitetônico animalístico zoomorfo astronômico.
Traço urbano do desenho zoomorfo tem forma de felino.
Topografia geográfica é acondicionada no corpo do felino.
O puma é o mais avançado dos animais dos Andes,
Desenho urbano pela canalização dos rios, tem a proteção e controle geográfico.
Traços e desenhos arquitetônicos com orientações cósmicas.
Planejamento urbano alinhado com a trajetória dos astros.
Divisão do espaço urbano tem características siderais.
Concepção urbana tem eixos que correspondem a orientações astronômicas.
Cidade alinhada com as estrelas e constelações principais.
Trajetória das divindades cósmicas coincidem com os alinhamentos da estrutura morfológica da cidade Puma. (tradução livre)

Como vemos na figura 8, o plano arquitetônico da cidade forma a figura de um puma no conjunto de Cusco. Cusco não é só uma cidade mas o centro da cosmogonia inca. Suas principais ruas, como marcadas no mapa, tem confluência com datas astronômicas importantes, por exemplo na Calle Siete Borreguitos os primeiros raios solares estão no centro no dia 21 de junho – solstício de inverno.

cuzcoOs sítios arqueológicos ao redor da cidade tem um ponto radial inicial que parte do monumento Del Qorikancha – o Templo Sagrado do Sol – e formam um complexo arqueoastronômico com precisão incrível, seguindo os movimentos solares, lunares, solstícios e equinócios. Este ponto é o chamado “umbigo do mundo”, e de onde saem todas as linhas imaginárias que formam a geografia cósmica inca.

Nesta figura vemos que saem do “umbigo do mundo” 42 linhas radiais que terminam nos sítios arqueológicos. Dentre estes sítios, o mais famoso e tombado pela UNESCO é o de Machu Picchu, construção religiosa cuja confluência radial passa pela cabeça do puma.

Nestas etapas históricas percebemos uma cosmogonia relacionada aos grandes felinos que evolui de um grupamento voltado à manutenção de sua elite, a ponto de haver indícios de má formação genética por casamento consanguíneo até uma cultura que extrapola os limites da terra e se vê como parte principal do sistema astronômico.

 

Bibliografia

Campbell, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. Editora Palas Athena, São Paulo. 424p. 1992

Chocano, Daniel. Jaguar e ideología en las sociedades del Período Formativo: Pacopampa un caso en los Andes centrales. Investigaciones sociales. Ano XI N° 18, pp. 139-150 [UNMSM / IIHS, Lima, 2007]

Delgado, D.G.S. : Arqueoastronomia inka – Cusco Cosmovisión y Arquitectura Mágica. Mundo Andino Editores. Lima, Peru. 270 p. 2011.

Gheller, Roberto (ed.): Antiguo Peru, Incas e preincas. Nancy Margarita Salazar Trujillo. Peru. 50p. 2013.

Goretti, Mateo. Catálogo da exposição Antes de América. Simbolos de culto y poder em las culturas prehispánicas. Fundacion Ceppa Ediciones. Salta, Argentina. 175p. 2007.

Santos Junior, Avelar. Cosmovisão e religiosidade andina: uma dinâmica histórica de encontros, desencontros e reencontros. Interações: Cultura e Comunidade [en linea] 2009, 4 [Fecha de consulta: 20 de diciembre de 2017] Disponible en:<http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=313027312011> ISSN 1809-8479.

Serrano, Javier Urcid. El simbolismo del jaguar en el suroeste de Mesoamérica. Arqueología Mexicana núm. 72, pp. 40-45. 2007. [consulta: 21 de dezembro de 2017]. Disponivel em : <http://arqueologiamexicana.mx/mexico-antiguo/el-simbolismo-del-jaguar-en-el-suroeste-de-mesoamerica>

Wilges, Irineu. Cultura religiosa. As religiões no mundo. Editora Vozes. 206p. 1994.

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