A Invasão Cristã no Mundo Celta – Substituição da Espada pelo Missionário

Diferente da forma habitual de invasão do cristianismo, através de guerras em conjunto com o império romano, em uma relação íntima de poder, a chegada deste sistema de crenças entre os celtas se fez de outra forma. Como a cristianização da Irlanda não foi nesta aliança império/igreja, estruturas formais de demonstração do “poder divino” não se fazem presentes.

Um dos fatos que colaborou para este tipo de invasão era que os celtas não possuíam grandes centros administrativo-políticos, mas pequenos vilarejos agrícolas interligados. Mas esta forma campestre de viver não excluía sua forma feroz de batalhas, sendo as guerras uma parte comum em sua cultura. Como suas vidas eram regidas basicamente pelos fatores climático-astronômicos, suas representações religiosas eram relacionadas à Natureza.

São Mateus

Na Irlanda há a descentralização do poder cristão pela ausência de abadias, dioceses ou grandes mosteiros. Como não haviam estruturas de poder complexas, a forma de entrada do cristianismo se fez através de monges e peregrinos. Esses missionários, mais relacionados com os homens comuns, se tornaram os agentes mais adequados a substituir progressivamente os líderes dos cultos religiosos celtas, como os druidas e os fillids (poetas).

Um outro ponto relevante e simultâneo é que durante as guerras, faziam-se  escravos romanos cristãos e estes introduziam as ideias de cristianismo nos grupos celtas, mais especificamente os irlandeses.  Segundo a literatura, Patrício, o primeiro santo irlandês, tem sua vinda relatada como cativo, tornando se posteriormente o primeiro missionário a pisar na  ilha,  sendo descrito seu bom relacionamento com com irlandeses.

Com esta integração, os livros sagrados do cristianismo começam a ser ilustrados com signos celtas. Vários das espirais desenhadas e esculpidas demonstram a intensa ligação dos celtas com as forças da Natureza e muitos desenhos entrelaçados, espirais entre outros demonstram a contemplação da vida e da morte na sociedade celta, reafirmando a ideia de sobrevivência do Espírito após a morte. Esta ideia de imortalidade e glória na batalha fazia com que os guerreiros tivessem uma postura peculiar de não ter medo da morte.

O mais famoso livro de Iluminuras é o “Book of Kells” (ou Evangeliário de São Columba) é um manuscrito feito por monges celtas datdo de cerca de 800 d.C. e se encontra atualmente na Biblioteca de Trinity College em Dublin

kells-monogram-page

Chi-ro (inscrição de Cristo, Book of Kells)

 

O meio mais significante de transmissão do cristianismo foram as iluminuras, onde  houve a união de partes da Bíblia com os símbolos celtas. Este sincretismo religioso fez com que a aceitação do cristianismo fosse crescente. Os pagãos celtas desenvolveram uma grande tolerância ao cristianismo, que por sua vez acabou por suplantar as crenças pagãs até que a população fosse convertida em sua totalidade.

Houve também o espalhamento de missionários irlandeses para outros povos, chegando até a Suíça. São Columba foi o primeiro monge a sair da Irlanda e migrar para outros locais, vindo a morrer na Escócia.

Como podemos perceber, as iluminuras irlandesas são a demonstração de um sincretismo com a substituição progressiva dos símbolos pagãos pelos cristãos.

BIBLIOGRAFIA:
  1. A. M. (1931). Irish Monasticism: Origins and Early Development .The Irish Monthly, 59 (697), 461-463. Jul 1931.
  2. CARRATO, J.F. Os Monges Viajantes Da Irlanda .Revista de Letras Vol. 1 (1960), pp. 142-200. Disponivel em http://www.jstor.org/stable/40542076
  3. CIRKER, B. (ed.) The Book Of Kells – select plates in full color. Dover Publications, New York. 32pp.
  4. COSTA FILHO. A.C. A Figura do Homem Santo na Uita Columbani: São Columbano (Séculos VI e VII). Trabalho apresentado à disciplina de Orientação Monográfica do curso de História. Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2006. 46p
  5. C.P.C. Irish art in the early christian period by Françoise Henry. Irish quartely Review vol 29(115), pp 466-468. Set. 1940 disponivel em <http://www.jstor.org/stable/30097894>
  6. GREEN. M. Exploring the World of the Druids. Thames & Hudson, London. 192pp.
  7. HUTCHINSON, C. The Pagan Influences on Christian Art in Ireland. Meeting of Minds 2010 .
  8. LOPES, M.O. Relações de Poder na Irlanda Cristã (Séc V-VII).ANPUH SP. XX Encontro Estadual de Historia. Campinas, 03 a 06 de setembro de 2012
  9. LUPI, J. Os Druidas.  Brathair 4 (1), 2004: 70-79. <Disponível em <http://ppg.revistas.uema.br/index.php/brathair>
  10. MARITAIN, Jacques & MORRIS, Mary. Sign and Symbol. Journal of the Warburg Institute Vol. 1(1).  (Jul., 1937), pp. 1-11 . 1937, jul. Disponivel em < http://www.jstor.org/stable/750065&gt;
  11. PAULA, M.V.. A luz e a sombra da iluminura. História, imagem e narrativas. No 15, outubro/2012 Disponível em <http://www.historiaimagem.com.br>
  12. RICHARDSON, Hilary. Number and Symbol in Early Christian Irish Art. Journal of the Royal Society of Antiquaries of Ireland, UK, vol 114, 28-47. 1984. Disponível em https://www.jstor.org/.
  13. SANTOS, D. & CORREIA, L.A. Peregrinatio et Penitentia no Livro I da Vita Columbae de Adomnan (Séc VII). Brathair 15 (1), 2015: 132-152. Disponível em <http://ppg.revistas.uema.br/index.php/brathair&gt;
  14. SILVA, .L.R.& DONNARD, A. A Arte Celta, da Antiguidade ao Contemporâneo. VIII Encontro de Arte e Cultura – 15 a 19 de outubro de 2012 – FAAC – UNESP.

Um comentário em “A Invasão Cristã no Mundo Celta – Substituição da Espada pelo Missionário

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s