Memória e História – Dia internacional da fotografia

Ultimamente tenho me questionado bastante sobre nossa História e a memória brasileira, já tão frágil e sendo esquecida a cada dia.

Certamente estamos vivendo em uma aldeia global, conectados por redes sociais. Mas me incomoda saber que nesta Modernidade Líquida, como nos fala Zygmunt Bauman, estamos perdendo a nossa memória cultural, ou pior, não estamos buscando por ela. E falo isso em todos as áreas do saber.

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Epréuve n°2 (acervo Instituto Moreira Salles)

Hoje se comemora o Dia Internacional da Fotografia. Este dia foi escolhido porque e 1839 na Academia Francesa de Ciências o “mundo” conhecia a invenção do daguerreótipo, o precursor da câmera fotográfica. Este nome é uma homenagem a Louis Daguerre que inventou esta máquina em 1937.

Por outro lado, temos no Brasil a figura de Hercule Florence, um franco-brasileiro que em 1833, em Campinas, havia descoberto a fotografia. A “Epréuve n°2 (photographie)” é uma fotografia de um conjunto de rótulos para frascos farmacêuticos e faz parte do acervo da Reserva Técnica do Instituto Moreira Sales.

Ou seja, seis anos antes de Academia Francesa apresentar ao mundo sua invenção, aqui no nosso país, Hercule Florence já fazia fotografias, e mais importante – devidamente registradas.

E assim eu me questiono, quantas outras tantas memórias brasileiras estão sendo diluídas no tempo ? Quanto de nosso patrimônio tanto material quanto imaterial está sendo esquecida antes de virar memória?

 

 

O Grito de Socorro da ARTE que o Brasil não ouviu

Portinari (1944) - Os Retirantes
Portinari (1944) – Os Retirantes

Eu não sou de brincar o Carnaval. Aproveito estes dias para ficar em casa descansando, curtindo o lar. Também não sou de ver o desfile pela televisão. Estes dias foram dedicados à netflix e aos meus livros.

Mas este ano algo foi diferente, a Escola de Samba São Clemente trouxe para a Avenida a história da Escola de Belas Artes (EBA), que é onde estudo História da Arte. Nossa Escola foi fundada pelo decreto-real de Dom João VI em 12/08/1816.

Com a chegada da Missão Francesa no Brasil começamos nossa história formal. E a São Clemente contou muito bem a nossa história. Se quiser ver o desfile, clique aqui.

Em 2016, exatamente no dia 03 de outubro, o prédio da Reitoria da UFRJ pegou fogo. A EBA, que ficava neste prédio, nossos ateliês, nossas salas de aula, tudo em chamas, tudo destruído. Por uma proteção de todas as musas da arte, o Museu de Obras Raras Dom João VI (que foi abraçado por todos os artistas que por lá passaram) não pegou fogo.

Incêndio Prédio Reitoria UFRJ
Fonte: http://noticias.band.uol.com.br/cidades/rio/noticias/100000825394/incendio-atinge-parte-da-reitoria-da-ufrj.html

Não teve quem não chorou. Eu mesmo chorei e sinto até hoje a nossa perda.

Nos últimos momentos do desfile da São Clemente mostrou nossos professores, que tanto lutaram e lutam pela Arte no Brasil. Logo após este carro vieram os meus colegas EBANXS, com suas fantasias – pintadas por eles mesmos. Bateu orgulho sabe? Logo depois veio o nosso prédio exatamente como está agora – dois anos depois – sem nossos ateliês, sem nossas salas de aula, todos espalhados pelo campus da UFRJ como se estivéssemos uma diáspora artística, cada um de nós em um prédio diferente.

Fico me questionando se o fosse o prédio do CT, onde passam os futuros engenheiros das maiores empresas do Brasil, onde estas empresas investem seu capital e dali escolhem seus trainees e juniores; fico me perguntando… em quantos MESES eles iriam reconstruir o prédio e seus equipamentos de última geração?

Mas nós, que “apenas” produzimos e estudamos arte, continuamos espalhados pelo campus, sem qualquer previsão de ter nosso espaço próprio, salas de aula e ateliês dignos de Portinari, Lygia Pape, Victor Meirelles e tantos outros que lá estudaram, e que o Brasil e o mundo reverencia.

O brasileiro bate no peito com orgulho e assim fica fácil falar do sucesso dos que já passaram por lá. Mas que tal pensar no futuro dos que estão passando e passarão por lá a partir do incêndio?

Não tenho esperanças ter sequer meu último semestre de volta à nossa Escola, e também não tenho esperanças das próximas gerações de EBANXS se formem em um espaço físico digno.

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