Em Um Minuto Tudo Pode Mudar

Salvador Dali. A tentação de Santo Antônio (1946)
https://en.wikipedia.org/w/index.php?curid=61605456

Foi um daqueles dias que acordei feliz por ficar em casa – “benditas quartas livres”, dizia eu. Fui para a cozinha tomar café com a Dona Nina, minha mãe, onde a gente todos os dias tem o ritual de tomar café juntas e ter pelo menos meia hora de um dedinho de prosa.

Ela me disse que iria ao hortifruti comprar frutas, pois estávamos sem nada em casa. E ela faz isso toda semana… pega seu carrinho e vai para o mercado, para a farmácia, qualquer lugar aqui perto e de preferência sozinha, mesmo “com esse joelho doendo, mudou o tempo, a artrose ataca”, pois ela não aguenta ficar em casa.

Nesta quarta eu resolvi fazer diferente. Eu tinha que pegar uma tomografia que fiz na emergência porque na semana anterior eu consegui a proeza de um tijolo de cimento de cerca de 3kg cair no meu rosto (depois eu conto…). Eu ia de carro com ela buscar o exame e depois a gente ia ao hortifruti fazer as compras.

E assim foi. Fizemos o planejado, e ao chegarmos em casa começamos a arrumar as coisas. Eu na pia da cozinha e Dona Nina e Johann (meu filho) arrumando a geladeira – cena de comercial americano dos anos 50.

De repente escutei um barulho, e Johann com olhar atônito olhava para o chão, onde mamãe estava caída se debatendo e balbuciando coisas desconexas.

Meu Deus! Mamãe teve um AVC!

Isso se passou em menos de um minuto, quando minha vida toda mudou.

Pegamos a mamãe de avental e tudo e corremos (muito) para o hospital. Eu que sou muito certinha no trânsito, até na contramão eu andei – fora as multas.

Entre o AVC e o socorro foram cerca de 40 minutos. Ela foi atendida e agora se encontra hospitalizada com os procedimentos e exames necessários.

Meu irmão Ronaldo e minha cunhada Renata chegaram e ficaram com ela para eu ir para casa pegar as coisas necessárias, levar o avental da mamãe para casa, trocar de roupa para passar a noite no Hospital e esperar a ficha cair.

É difícil? Com certeza! Mas não estou aqui para desabafar ou fazer grupo de ajuda a filhos de pais com AVC, mas contar as situações mais loucas que acontecem quando sua vida muda de repente e você nem sabe para onde ela foi. E mais, como tem gente sem noção neste mundo, que te estressam muito mais do que a própria doença que se instala.

Vou ser sincera, é muita gente louca com muita atitude louca em um mundo de cabeça para baixo, e vou contar para vocês este folhetim mal escrito que minha vida se tornou.

Eu paro e começo a rir, mas não sei se de nervoso, de idiotia, de raiva ou de vontade de mandar as pessoas para a M£..@… Talvez de tudo junto.

Essa plaquinha fica na minha varanda, bem na porta de casa. Eu a comprei, pois achei muito “descolada” e maneira na época, mas confesso que agora é meu mantra diário porque olha… é cada situação surreal que a gente passa que nem Salvador Dali poderia dar conta.

A Quem Pertence um Bem Cultural?

Da Vênus Negra à Dama Dourada

O filme autobiográfico “A Dama Dourada” chegou às bilheterias no ano de 2015, tendo como elenco a atriz inglesa Helen Mirren no papel da judia Maria Altmann e Ryan Reynolds no papel do advogado americano Randol Schoenberg.
A trama central do filme é o processo jurídico que os protagonistas iniciam contra o governo austríaco para reaver a posse do quadro “O Retrato de Adele Bauer” pintado por Gustav Klimt. Adele Bauer era a tia de Maria Altmann, que faziam parte de uma rica família de judeus em Viena. Ao invadir a Áustria, os nazistas se apropriam dos bens dos judeus e os que são deixados (como o caso do quadro de Klimt) passam a fazer parte do governo austríaco. Esse quadro tem uma grande importância, sendo denominado “A Mona Lisa da Áustria”. Ao final do filme, Maria Altmann ganha o processo e leva o quadro para os Estados Unidos, onde ele fica permanentemente exposto na Galeria Neue em Nova Iorque, desde julho de 2006.

Dos Gabinetes de Curiosidades aos Espólios de Guerra
Ainda nos séculos 16 e 17, após o conhecimento do Novo Mundo pela Europa, surgiram os chamados Gabinetes de Curiosidades, que eram lugares de memória por excelência, com pensamento enciclopedista de se ter ao alcance dos olhos tudo o que existe em lugares distantes e desconhecidos (POSSAS, 2005). Do século 18 ao 19, esses gabinetes foram se modificando através do ordenamento e dos sistemas de classificação até chegarem ao estágio de organização de coleções específicas destinadas ao estudo e investigação de vários campos do saber. Deste estágio, na estruturação de espaços maiores e mais específicos em seus temas, com estudos mais aprofundados, classificação e ordenamento oficial, temos o surgimento dos museus com a guarda de todo o “conhecimento” existente até então.
Conjuntamente ao surgimento destes museus, temos no século 19, a partir de 1851 em Londres, a realização das grandes exposições universais, onde cada pavilhão e estrutura refletiam o conhecimento ou a cultura de um determinado país. Segundo KOUTSOUKOS (2010) “eram exibidos os ícones do progresso e civilização de cada país participante, sua indústria, tecnologia, ciências, artes e cultura, ao lado de “zôos humanos”… era tênue a fronteira entre o que era considerado exato (científico) e exótico (curioso)… o que se fazia era selecionar, colecionar, exibir, analisar, medir, classificar, retratar, descrever, controlar e arquivar os “outros” e a sua imagem”.
Há um deslocamento geográfico e temporal das culturas, que por mais distantes que estejam da Europa, podem ser vistas e estudadas em espaços que recriam seu “habitat natural”. O homem está “diante da descontinuidade geográfica … sob a consigna “tudo ao mesmo tempo agora” que parece governar as Exposições Universais”. (CORDIVOLA, 2001).
Assim, com o surgimento dos museus e das exposições universais há o espaço para a troca de conhecimentos e materiais dos mais diversos.
Desta exposição do “científico e curioso”, um exemplo é a história de Sarah Baartman, nascida em 1789 na África do Sul que era exposta como aberração em feiras na Europa, cuja morte em dezembro de 1815 não lhe deu o repouso pós morte. Seu corpo foi dissecado, seu esqueleto, órgãos genitais e cérebro foram preservados e colocados em exposição em Paris, no Musée de l’Homme, até 1974, quando então foram retirados da visitação pública e guardados; ainda assim, um acervo foi exibido pelos dois anos seguintes.

O pedido de repatriação de seus restos mortais teve início em 1940, mas este processo só foi encerrado em março de 2002, quando o governo francês, aceitou o pedido do então presidente NelsonMandela para a África do Sul. Ela finalmente foi enterrada em agosto de 2002, quase 200 anos depois de sua morte.
Interessante ressaltar que a França assinou a convenção relativa às medidas a serem adotadas para proibir e impedir a importação, exportação e transferência de propriedades ilícitas dos bens culturais, durante a Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, reunida em Paris, de 12 de outubro a 14 de novembro de 1970, sendo definido como bens culturais “quaisquer bens que, por motivos religiosos ou profanos, tenham sido expressamente designados por cada Estado como de importância para a arqueologia, a pré-história, a história, a literatura, a arte ou a ciência”.
Existem inúmeros casos de apropriação de espólios de guerra e expedições que causam desconforto entre as Nações. Se analisarmos as peças museológicas, podemos inferir que os grandes museus, principalmente os de História Natural e os de Artes, vivem graças a artefatos que de alguma forma foram retirados de seus ambientes naturais.
Parte do legado da antiga Babilônia, o Portão de Ishtar, que são paredes de tijolo decoradas com baixo-relevo do touro e do dragão sagrados na porta original de Ishtar, Iraque se encontra no Museu Pergamon, em Berlim na Alemanha.

Mesmo que estas questões estejam aflorando em grande parte do mundo, as Nações Unidas estão mais interessadas em evitar o trafico de bens devido a possibilidade de alimentar o terrorismo do que em preservar a própria história, como vemos no decreto nº 8.799, de 6 de julho de 2016, que dispõe sobre a execução, no território nacional, da Resolução 2253 (2015), de 17 de dezembro de 2015, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que atualiza e fortalece o regime de sanções, imposto pela Resolução 1267 (1999), relativo ao Estado Islâmico no Iraque e no Levante e à Al-Qaeda.

Torna-se importante ressaltar que até os dias de hoje, incontáveis artefatos são traficados dos países periféricos como o Brasil até os ditos países de primeiro mundo como Canadá, Japão e Europa de uma forma geral.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Decreto nº 8.799, de 6 de julho de 2016, que dispõe sobre a execução, no território nacional, da Resolução 2253 (2015), de 17 de dezembro de 2015, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que atualiza e fortalece o regime de sanções, imposto pela Resolução 1267 (1999), relativo ao Estado Islâmico no Iraque e no Levante e à Al-Qaeda.

CORDIVOLA, Alfredo. Um engenheiro na exposição universal: andré rebouças e os fantasmas da técnica. Signótica: 13: 27-46, jan./dez. 2001.


KOUTSOUKOS, Sandra S. M. Dahomeyans: espetáculo e ciência na Exposição Universal de Chicago (1893). RESGATE – Vol. XVIII, No. 19 – jan./jul. 2010. p.122134.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção relativa às medidas a serem adotadas para proibir e impedir a importação, exportação e transferência de propriedades ilícitas dos bens culturais. Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Paris, de 12 de outubro a 14 de novembro de 1970.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção relativa às medidas a serem adotadas para proibir e impedir a importação, exportação e transferência de propriedades ilícitas dos bens culturais. Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Paris, de 12 de outubro a 14 de novembro de 1970.

POSSAS, Helga C. G. Classificar e ordenar: os gabinetes de curiosidades e a história natural. In: Museus: dos gabinetes de curiosidade à museologia moderna. Argentvm Editora. Belo Horizonte. 2005. P. 151 a 162.