Ahh Graham Bell

Munch, Edvard (1885) A Menina Doente

Para esclarecer a todos, os posts não estão em ordem cronológica, porque muitos acontecem ao mesmo tempo. Vai no aleatório mesmo, conforme vou lembrando os as coisas me estressando demais.

Minha mãe sempre falou que eu tenho a boca suja, principalmente quando vejo futebol. Mas estar passando este processo está no mesmo grau de verborragia de baixo calão que um jogo de final com o Liverpool (torço pelo Liverpool). Eu não chego a falar os palavrões, mas é cada coisa que passa na cabeça! Cada legenda que Dercy Gonçalves estaria vermelha de vergonha.

Uma das minhas grandes questões ainda no período de choque era estabelecer prioridades. Muitas coisas ao mesmo tempo e mamãe é muito querida, tipo vovó do Chapeuzinho Vermelho então é muita gente querendo saber dela mas com suas prioridades.

NÃO SE ESQUEÇA: A PRIORIDADE É DO PACIENTE E NÃO A SUA. SE A PESSOA QUE ESTÁ TOMANDO CONTA TE RESPONDER MONOSILABICAMENTE OU NÃO RESPONDER, ELA ESTÁ OCUPADA. DEIXA DE SER B@…k@.

Gente do céu! Atendi um telefonema cujas palavras iniciais da pessoa foram: “nossa! Até que enfim consegui falar com alguém! Ligo para sua mãe ninguém atende e para sua casa e ninguém atende!”. Juro por Deus que foi assim mesmo. De impulso pensei em centenas de palavrões para dizer em menos de um minuto, tipo recorde mundial, mas depois vi minha mãe na minha frente me desaprovando com o olhar pela minha boca suja. Parei, respirei fundo expliquei que mamãe está com um AVC, se não consegue segurar um copo, quem dirá o telefone, e eu estou com ela, logo não estou em casa para receber telefonemas.

DICA: NUNCA LIGUE ANTES DAS 10:00HS PARA UMA PESSOA QUE ESTÁ ACOMPANHANDO OUTRA NO HOSPITAL.

Teve gente que me ligou 7:01 da manhã de domingo, o segundo dia que consegui ter uma relação de amor com minha cama. Quase morri do coração. Caramba! Vai tomar café primeiro, varre o quintal, faz o almoço, vai na praia pegar um bronze e depois liga. Deixa de ser sem noção!

Liga o mais tarde possível, se para você 8 da manhã já é o fim da manhã, para nós ainda estamos tentando o soninho da noite anterior.

Terei um post sobre nossa rotina de ficar apenas “acompanhando” alguém no hospital.

O maldito whatsapp também terá um capitulo todo seu.

Em Um Minuto Tudo Pode Mudar

Salvador Dali. A tentação de Santo Antônio (1946)
https://en.wikipedia.org/w/index.php?curid=61605456

Foi um daqueles dias que acordei feliz por ficar em casa – “benditas quartas livres”, dizia eu. Fui para a cozinha tomar café com a Dona Nina, minha mãe, onde a gente todos os dias tem o ritual de tomar café juntas e ter pelo menos meia hora de um dedinho de prosa.

Ela me disse que iria ao hortifruti comprar frutas, pois estávamos sem nada em casa. E ela faz isso toda semana… pega seu carrinho e vai para o mercado, para a farmácia, qualquer lugar aqui perto e de preferência sozinha, mesmo “com esse joelho doendo, mudou o tempo, a artrose ataca”, pois ela não aguenta ficar em casa.

Nesta quarta eu resolvi fazer diferente. Eu tinha que pegar uma tomografia que fiz na emergência porque na semana anterior eu consegui a proeza de um tijolo de cimento de cerca de 3kg cair no meu rosto (depois eu conto…). Eu ia de carro com ela buscar o exame e depois a gente ia ao hortifruti fazer as compras.

E assim foi. Fizemos o planejado, e ao chegarmos em casa começamos a arrumar as coisas. Eu na pia da cozinha e Dona Nina e Johann (meu filho) arrumando a geladeira – cena de comercial americano dos anos 50.

De repente escutei um barulho, e Johann com olhar atônito olhava para o chão, onde mamãe estava caída se debatendo e balbuciando coisas desconexas.

Meu Deus! Mamãe teve um AVC!

Isso se passou em menos de um minuto, quando minha vida toda mudou.

Pegamos a mamãe de avental e tudo e corremos (muito) para o hospital. Eu que sou muito certinha no trânsito, até na contramão eu andei – fora as multas.

Entre o AVC e o socorro foram cerca de 40 minutos. Ela foi atendida e agora se encontra hospitalizada com os procedimentos e exames necessários.

Meu irmão Ronaldo e minha cunhada Renata chegaram e ficaram com ela para eu ir para casa pegar as coisas necessárias, levar o avental da mamãe para casa, trocar de roupa para passar a noite no Hospital e esperar a ficha cair.

É difícil? Com certeza! Mas não estou aqui para desabafar ou fazer grupo de ajuda a filhos de pais com AVC, mas contar as situações mais loucas que acontecem quando sua vida muda de repente e você nem sabe para onde ela foi. E mais, como tem gente sem noção neste mundo, que te estressam muito mais do que a própria doença que se instala.

Vou ser sincera, é muita gente louca com muita atitude louca em um mundo de cabeça para baixo, e vou contar para vocês este folhetim mal escrito que minha vida se tornou.

Eu paro e começo a rir, mas não sei se de nervoso, de idiotia, de raiva ou de vontade de mandar as pessoas para a M£..@… Talvez de tudo junto.

Essa plaquinha fica na minha varanda, bem na porta de casa. Eu a comprei, pois achei muito “descolada” e maneira na época, mas confesso que agora é meu mantra diário porque olha… é cada situação surreal que a gente passa que nem Salvador Dali poderia dar conta.