A Quem Pertence um Bem Cultural?

Da Vênus Negra à Dama Dourada

O filme autobiográfico “A Dama Dourada” chegou às bilheterias no ano de 2015, tendo como elenco a atriz inglesa Helen Mirren no papel da judia Maria Altmann e Ryan Reynolds no papel do advogado americano Randol Schoenberg.
A trama central do filme é o processo jurídico que os protagonistas iniciam contra o governo austríaco para reaver a posse do quadro “O Retrato de Adele Bauer” pintado por Gustav Klimt. Adele Bauer era a tia de Maria Altmann, que faziam parte de uma rica família de judeus em Viena. Ao invadir a Áustria, os nazistas se apropriam dos bens dos judeus e os que são deixados (como o caso do quadro de Klimt) passam a fazer parte do governo austríaco. Esse quadro tem uma grande importância, sendo denominado “A Mona Lisa da Áustria”. Ao final do filme, Maria Altmann ganha o processo e leva o quadro para os Estados Unidos, onde ele fica permanentemente exposto na Galeria Neue em Nova Iorque, desde julho de 2006.

Dos Gabinetes de Curiosidades aos Espólios de Guerra
Ainda nos séculos 16 e 17, após o conhecimento do Novo Mundo pela Europa, surgiram os chamados Gabinetes de Curiosidades, que eram lugares de memória por excelência, com pensamento enciclopedista de se ter ao alcance dos olhos tudo o que existe em lugares distantes e desconhecidos (POSSAS, 2005). Do século 18 ao 19, esses gabinetes foram se modificando através do ordenamento e dos sistemas de classificação até chegarem ao estágio de organização de coleções específicas destinadas ao estudo e investigação de vários campos do saber. Deste estágio, na estruturação de espaços maiores e mais específicos em seus temas, com estudos mais aprofundados, classificação e ordenamento oficial, temos o surgimento dos museus com a guarda de todo o “conhecimento” existente até então.
Conjuntamente ao surgimento destes museus, temos no século 19, a partir de 1851 em Londres, a realização das grandes exposições universais, onde cada pavilhão e estrutura refletiam o conhecimento ou a cultura de um determinado país. Segundo KOUTSOUKOS (2010) “eram exibidos os ícones do progresso e civilização de cada país participante, sua indústria, tecnologia, ciências, artes e cultura, ao lado de “zôos humanos”… era tênue a fronteira entre o que era considerado exato (científico) e exótico (curioso)… o que se fazia era selecionar, colecionar, exibir, analisar, medir, classificar, retratar, descrever, controlar e arquivar os “outros” e a sua imagem”.
Há um deslocamento geográfico e temporal das culturas, que por mais distantes que estejam da Europa, podem ser vistas e estudadas em espaços que recriam seu “habitat natural”. O homem está “diante da descontinuidade geográfica … sob a consigna “tudo ao mesmo tempo agora” que parece governar as Exposições Universais”. (CORDIVOLA, 2001).
Assim, com o surgimento dos museus e das exposições universais há o espaço para a troca de conhecimentos e materiais dos mais diversos.
Desta exposição do “científico e curioso”, um exemplo é a história de Sarah Baartman, nascida em 1789 na África do Sul que era exposta como aberração em feiras na Europa, cuja morte em dezembro de 1815 não lhe deu o repouso pós morte. Seu corpo foi dissecado, seu esqueleto, órgãos genitais e cérebro foram preservados e colocados em exposição em Paris, no Musée de l’Homme, até 1974, quando então foram retirados da visitação pública e guardados; ainda assim, um acervo foi exibido pelos dois anos seguintes.

O pedido de repatriação de seus restos mortais teve início em 1940, mas este processo só foi encerrado em março de 2002, quando o governo francês, aceitou o pedido do então presidente NelsonMandela para a África do Sul. Ela finalmente foi enterrada em agosto de 2002, quase 200 anos depois de sua morte.
Interessante ressaltar que a França assinou a convenção relativa às medidas a serem adotadas para proibir e impedir a importação, exportação e transferência de propriedades ilícitas dos bens culturais, durante a Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, reunida em Paris, de 12 de outubro a 14 de novembro de 1970, sendo definido como bens culturais “quaisquer bens que, por motivos religiosos ou profanos, tenham sido expressamente designados por cada Estado como de importância para a arqueologia, a pré-história, a história, a literatura, a arte ou a ciência”.
Existem inúmeros casos de apropriação de espólios de guerra e expedições que causam desconforto entre as Nações. Se analisarmos as peças museológicas, podemos inferir que os grandes museus, principalmente os de História Natural e os de Artes, vivem graças a artefatos que de alguma forma foram retirados de seus ambientes naturais.
Parte do legado da antiga Babilônia, o Portão de Ishtar, que são paredes de tijolo decoradas com baixo-relevo do touro e do dragão sagrados na porta original de Ishtar, Iraque se encontra no Museu Pergamon, em Berlim na Alemanha.

Mesmo que estas questões estejam aflorando em grande parte do mundo, as Nações Unidas estão mais interessadas em evitar o trafico de bens devido a possibilidade de alimentar o terrorismo do que em preservar a própria história, como vemos no decreto nº 8.799, de 6 de julho de 2016, que dispõe sobre a execução, no território nacional, da Resolução 2253 (2015), de 17 de dezembro de 2015, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que atualiza e fortalece o regime de sanções, imposto pela Resolução 1267 (1999), relativo ao Estado Islâmico no Iraque e no Levante e à Al-Qaeda.

Torna-se importante ressaltar que até os dias de hoje, incontáveis artefatos são traficados dos países periféricos como o Brasil até os ditos países de primeiro mundo como Canadá, Japão e Europa de uma forma geral.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Decreto nº 8.799, de 6 de julho de 2016, que dispõe sobre a execução, no território nacional, da Resolução 2253 (2015), de 17 de dezembro de 2015, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que atualiza e fortalece o regime de sanções, imposto pela Resolução 1267 (1999), relativo ao Estado Islâmico no Iraque e no Levante e à Al-Qaeda.

CORDIVOLA, Alfredo. Um engenheiro na exposição universal: andré rebouças e os fantasmas da técnica. Signótica: 13: 27-46, jan./dez. 2001.


KOUTSOUKOS, Sandra S. M. Dahomeyans: espetáculo e ciência na Exposição Universal de Chicago (1893). RESGATE – Vol. XVIII, No. 19 – jan./jul. 2010. p.122134.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção relativa às medidas a serem adotadas para proibir e impedir a importação, exportação e transferência de propriedades ilícitas dos bens culturais. Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Paris, de 12 de outubro a 14 de novembro de 1970.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção relativa às medidas a serem adotadas para proibir e impedir a importação, exportação e transferência de propriedades ilícitas dos bens culturais. Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Paris, de 12 de outubro a 14 de novembro de 1970.

POSSAS, Helga C. G. Classificar e ordenar: os gabinetes de curiosidades e a história natural. In: Museus: dos gabinetes de curiosidade à museologia moderna. Argentvm Editora. Belo Horizonte. 2005. P. 151 a 162.

Experiência e Liderança

restauração pintura séc 19

Esta semana eu li uma postagem que falava sobre a conclusão de uma grande empresa de consultoria que dizia estar faltando líderes. E ao analisar o texto, vi uma questão que percebo como uma das mais comuns de nosso mercado, embora digam que não (é antiético!) – a idade.

As empresas e os recrutadores querem líderes sim, mas de no máximo seus 40-45 anos. E assim, muitas vezes o que se vê são ótimos técnicos sendo péssimos chefes. Isso porque líder e chefe são duas definições totalmente diferentes. E aí as empresas reclamam que não conseguem formar jovens líderes.

Sabe por quê? Porque líder se faz pelo que ele se torna na sua trajetória e não pelo tempo de experiência. Pela média, um profissional se forma na faculdade com 25 anos (mais ou menos), começa logo a trabalhar como trainee, depois de x anos vai a júnior, depois a pleno, depois… depois… depois…

Neste processo ele pode vir a se tornar um excelente técnico, capaz, inovador. Com o tempo ele vai se aperfeiçoando cada vez mais, e cada problema leva a uma diferente solução – aprende o pulo do gato.

Mas o líder vai se formando com o desenvolvimento da inteligência emocional, da empatia, da arte da negociação, do aprender a prestar atenção, e da resiliência. E isso se consegue com tempo, com muito tempo. O ótimo técnico pode fazer curso para ouvir o outro, de comunicação não violenta, de estratégia de abordagens, o curso que for. Mas isso é teoria e o exercício do curso é controlado, hipotético.

Ah… então me diga, onde aprende isso? Com a vida, com as vivências diárias. E mais, com o saber lidar com os diferentes o longo dos anos. Saber lidar com o síndico do seu prédio, saber lidar com o guarda de trânsito, saber dialogar domingo à tarde enquanto um filho quer ir ao cinema e o outro quer ficar em casa jogando videogame, ou quando os dois querem o último pedaço da torta. Escolher entre financiar o carro em 36 vezes ou esperar um pouco no ônibus superlotado e diminuir as prestações para apenas 24.

Isso se aprende com a vivência, e vivência significa que o tempo passa. Que o grisalho aparece, e que os 40 anos ainda é pouco. Alexandre se tornou o grande porque foi educado pelo velho Aristóteles. E sabe aquele grande artilheiro que vale milhões de euros? Ele tem na beira do campo seu “professor” gritando “pela esquerda, recua, passa bola pra fulano”.

O que vejo é que em pleno século XXI, com todos os avanços da medicina e do bem-estar, o profissional com cerca de 50 anos tem muita saúde, garra e disposição para produzir, liderar, construir. Então qual a questão das empresas de contratar estes profissionais?

Enquanto que estes profissionais “cinquentões” estão no séc. XXI com todo gás, as empresas e os recrutadores ainda estão chegando no séc. XV, quando os Medici encomendavam nos ateliês várias pinturas que tinham pinceladas dos jovens gênios, mas quem chamou para si a responsabilidade de pintar a Vênus, foi Botticelli (com 41 anos – já velho para os padrões da época).

E quanto ao “saber fazer”, à experiência adquirida, você deixaria qualquer um restaurar uma obra de arte?