Veja Virgílio, conseguimos!

De repente Virgílio parou na minha frente, ofegante, olhos arregalados, boca aberta, como se não acreditasse no que estava vendo. Parei alguns segundos para ver meu companheiro de jornada e vi o quanto ele envelheceu neste tempo que estivemos juntos. Suas mãos ressecadas, ombros caídos e cabelos ralos demonstram quanto sofrimento passamos.

Finalmente após quatro anos cada vez descendo mais baixo junto aos irados, aos violentos, aos fraudadores, e a tantos outros espalhados pelos mais diversos círculos do Inferno, chegamos nos portais do Purgatório, onde um anjo nos aguarda na parte superior da escada

Os Portais do Purgatório -Gustave Doré

Fiquei feliz, comecei a pular e a abraçar meu companheiro de jornada como se tivesse diante de um oásis mágico, quis sair correndo mas fui rapidamente impedida pelo anjo, que assim me falou:

– Vocês ainda têm um caminho longo a percorrer, muitos males a serem expurgados. Terão que passar pelos sete degraus para se purificarem de tudo que trouxeram agregados em seus corpos, mentes e corações nestes últimos quatro anos. E lembrem-se, vocês não estão no paraíso, apenas saíram do Inferno.

Gustave Doré Purgatório

Relatividade

A vida é um eterno avançar e retroceder. E o que parece ser um avanço na realidade pode ser um grande retrocesso, pois a lente pode ser apenas a objetiva de um telescópio voltado para mim mesma.

Passam-se os anos traçando rotas, delimitando caminhos, reforçando prazeres, depurando gostos. Novas desilusões, tristezas, nova alegrias e flores.

Juro a mim mesma não cometer os mesmos erros e acabo acertando o caminho. Fico feliz, pois durante anos sigo meu planejamento. Segue-se a paz e a vida, sem sobressaltos, sem verões escaldantes, sem invernos rigorosos.

“Relatividade”, M. C. Escher, 1953, litografia

Mas aí vem a relatividade e muda tudo. De uma pintura renascentista, com todas as suas métricas passa-se sem avisar para uma obra de Escher, onde não há saída. Do belo céu de Bellini sou içada ao cinza das escadas infinitas onde me canso de subir e descer ao procurar uma fresta de claridade. Mas quando canso de subir e descer as escadas sem sucesso, sento e choro, tentando entender o que estava acontecendo de errado, já que o planejamento estava sendo seguido.

E foi necessária apenas uma lágrima se transformar em prisma, e através do arco-íris formado, pude perceber que a minha objetiva estava focada em mim, e não na beleza do mundo e nas supresas que ele nos dá. E quando olho para fora, surge um mundo de possibilidades para um futuro diferente do que imaginei até agora.

Tenho coragem de virar o telescópio e vislumbro um mundo sem métricas, sem tons de cinzas. Também não sei que cores tem ainda, descobrirei aos poucos. Junto com os odores e sabores que virão.