Clipes de Arte – Losing My Religion / R.E.M. Renascimento e Barroco se Encontram

No mundo contemporâneo as obras de arte não se encontram apenas na antiga tríade, sejam elas pintura, escultura e arquitetura. As artes digitais diferenciam qualquer produção, principalmente as de videoclipes. Um dos mais fantásticos clipes que já vi até hoje em termos de inspiração artística é o Losing My Religion – R.E.M do que se percebe claramente a disputa do estilo barroco com o renascentista.

Me atrevo até a analisar os frames segundo os fundamentos de Wollflin, que em seu trabalho historiográfico separa 5 pares de conceito que distingue o barroco do renascimento.

Renascimento

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Figura 1 – renascimento

 1) A forma fechada – fica claro neste frame, ou seja, toda a história cabe na imagem, o expectador não foge o olhar da tela, a tela está contida nela mesma.

2) Linearidade: percebemos os detalhes do panejamento, da asa, das nuvens. Os traços são contínuos.

3) Planaridade: Toda a cena ocorre em planos paralelos, ou seja, podemos facilmente retirar a árvore, por exemplo, sem prejuízo da imagem dos homens, o mesmo acontecendo com a montanha.

4) Pluralidade: Como existem planos paralelos que podem ser “fatiados” sem perda de contornos, cada fatia desta mantém sua autonomia. Estes planos são autônomos.

5) Clareza Absoluta: A tela é clara, transborda a claridade e assim se percebe todos os detalhes do quadro, como se o expectador estivesse jogando um foco de luz diretamente na tela.

Barroco

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Figura 2 – Barroco

1) Forma Aberta: No frame selecionado, percebemos que a cena não termina nela, existe uma diagonal nas personagens que faz com que o olhar saia da tela, procure algo fora.

2) Pictórico: não há contornos definidos, linhas formando toda a imagem. Por exemplo, não conseguimos ver os pés da mulher ou a perna direita do homem desnudo.

3) Profundidade: o barroco brinca com a profundidade através do jogo de diagonais e claro/escuro. Há peso na parede, texturas que não são vistas no renascimento

4) Unidade: A supressão de qualquer personagem “retalha” o quadro. Não se consegue recortar, por exemplo, o homem desnudo do homem ao lado sem perda da história.

5) Clareza relativa: No barroco mais do que em qualquer outro estilo, o jogo de sombra e luz se faz presente para dar dramaticidade e densidade na tela. A luz não é frontal como no renascimento, mas vem de uma diagonal, que deixa determinadas partes obscuras nas pinturas.

 

Na realidade a análise de obras de arte é uma dos temas mais interessantes para um historiador da arte, mas fazer este trabalho em videoclipes é fantástico.

 

Bibliografia:

WÖLFLLIN, H. Conceitos Fundamentais de História da Arte. São Paulo: Martins Fontes. 1984.

À caça de Fra Angelico

Dia destes eu estava fazendo uma visitinha aos sebos do centro do Rio de Janeiro e fiquei apaixonada por um livro que vi – e claro! comprei – sobre Fra Angelico.

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Para início de conversa o próprio livro já tem sua beleza. Suas páginas amareladas contam o segredo de sua idade, um belo exemplar de 1940. O livro escrito por Luis Guimarães Filho tem em seu interior aquelas páginas grossas e amareladas e as fotos em papel couché preto e branco. Luis Guimarães Filho foi poeta e diplomata, e trabalhando no Vaticano, teve acesso a um vasto material bibliográfico para suas pesquisas.

Eu queria colocar aqui fotos melhores mas minha querida amiga restauradora Patrícia Lavall me instruiu para não digitalizar as fotos até que ela possa ver o livro para não colocar em risco a integridade dele. Assim sendo por enquanto apenas as fotos mal tiradas pelo celular.

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Existem várias fotos para eu mostrar para você, mas em especial tem o afresco do claustro que serviu de pano de fundo para os estudos de historiografia da arte de Didi-Huberman em seu livro Diante da Imagem. Esta foto ao lado é o afresco Anunciação pintada entre 1440-41 na cela 3 do Convento de São Marco, em Florença.

No próximo post estarei falando biograficamente sobre Fra Angelico, mas já podemos ter uma ideia da importância deste monge para a pintura, e principalmente para o Renascimento.

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