Sob o véu denso do céu estrelado

Primeiro não foi o Nada. Foi a subtração.

Subtração de vidas, de liberdades. Subtração de sonhos e de realidades.

E sobre a solidão de máscaras, de lugares, eu te achei no local mais improvável.

E de toda a improbabilidade, paradoxalmente você se materializou.

Aquele pedido silencioso se fez de carne e osso, incorporado através de todos os sentidos.

O contraponto da minha mente acelerada e caótica, a pausa necessária.

Meu olhar em movimento começou a vislumbrar o mundo sem a lâmina fria que causa a dor de viver em um mundo cinza.

Mas ao mesmo tempo em que tudo fez sentido, nada fez sentido, pois a caminhada na aridez do caminho sempre foi só.

O véu do desconhecimento deve ser retirado, pouco a pouco. Descobertas, reflexões, acordos.

Deverei avisar à Magritte que a distância virtual colocada entre a tessitura dos amantes será retirada?

Farei isso com minhas próprias mãos.

Não será através da queda brusca do véu, pois tudo será com a delicadeza de uma bailarina, e aos poucos conseguirei transformar este pano denso e disforme em algo fluido e etéreo.

Também não quero que o véu se desfaça totalmente, mas que ele fique tão sutil que a vida jamais abandone o mistério.

O mistério de viver, o mistério de amar, o mistério de se entregar.

René Magritte – Os Amantes, 1928 – óleo sobre tela – 54 x 73,4 cm – Museum of Modern Art (MoMA), New York, USA

Sobre a pressa de viver – Futurismo revisitado

“Você é uma pessoa totalmente indelicada. Você tira seu aviso de leitura do whatsapp para a gente não saber se você leu ou não”

“Como assim você não gosta de áudio? se fosse para digitar eu mandava um email”

Te mandei a mensagem às 5 da tarde e você só me responde às 8 da noite?

Foi assim o início de um áudio de mais de 4 minutos que ontem eu recebi de uma pessoa.

Confesso que após o impacto inicial desta abordagem desastrosa, comecei a me lembrar de um dos movimentos artísticos que menos tenho apreço – o futurismo.

Embora tenha este nome, o futurismo foi um movimento das vanguardas artísticas do início do século XX, mais fortemente na Itália, com a publicação em 1909 do manifesto futurista de Philippo Marinetti. Eles estavam “embalados” por toda o frisson das invenções e descobertas realizadas nos séculos anteriores, em especial com os desdobramentos da 1a Revolução Industrial, causando grandes mudanças na sociedade.

Dinamismo de um cachorro na coleira – Giacomo Balla (1912). óleo sobre tela

Este movimento caracterizou-se basicamente por uma agressiva valorização da tecnologia, da velocidade e da vida urbana. Os futuristas queriam destruir tudo o que era “velho”. Isso tudo seria até mesmo interessante – romper com grilhões do passado – se não fosse pela maneira imposta.

Nós destruiremos os museus, bibliotecas, academias de todo tipo, lutaremos contra o
moralismo, feminismo, toda cobardice oportunista ou utilitária.

Este trecho do Manifesto Futurista de Marinetti, nos dá indícios do que se propõe este movimento. Em outro trecho é dito “nós glorificaremos a guerra”. E não é segredo algum que este movimento justificava a violência pelo militarismo, e se tornou totalmente identificada com o fascismo.

E porque eu me lembrei do futurismo na mensagem do whatsapp?

A velocidade futurista esbarra com a sede de controle, e mais… conversa fluidamente com a volta de políticas e ações de um direita intransigente.

Quando o indivíduo reclama que tiramos o sinal de leitura do aplicativo, indiretamente ele nos avisa que sua postura é de controle do outro. Quando ele se aborrece porque não gostamos de áudio, ele está nos avisando que não há espaço para que façamos o que é de nossa vontade. Quando a pessoa reclama que não respondeu rapidamente, ela quer tirar de nós o nosso próprio tempo.

Isto nos leva ao entendimento que o individuo quer ter o nosso controle, nossa vontade e nosso tempo e se utiliza de ferramentas tecnológicas para isso.

Isso ficaria apenas no campo da divagação sobre relações interpessoais, se não tivéssemos em nossa sociedade o fantasma do fascismo revisitado, sob roupas de cuidado e proteção, nos mesmos moldes do início do século XX.

Afinal, em ano de eleições, nada mais futurista que incitar a guerra nas redes sociais e aplicativos – tudo para o bem do que eles consideram Nação.

Retrato de Marinetti (1925).
Enrico Prampolini